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Sobre os forcados e a sua singularidade no mundo taurino...

Recuperamos hoy, tratándose de un excelente artículo, una de las colaboraciones que el Dr. Domingos da Costa Xavier (q.e.p.d.) tuvo a bien que se difundiesen en la publicació…

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Recuperamos hoy, tratándose de un excelente artículo, una de las colaboraciones que el Dr. Domingos da Costa Xavier (q.e.p.d.) tuvo a bien que se difundiesen en la publicación taurina que anteriormente a la TRIBUNA dirigiamos. Han pasado bastantes años, mas la vigencia de este artículo es incuestionable.
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De saber exacto, dá-nos a história testemunho de que El Rei Dom João II enfrentou e pegou de caras um toiro na vila de Alcochete, corria o ano de 1478, quando o bravo animal inusitadamente surgiu na via em que a majestade se deslocava com a  corte. Mas, não é por aqui que vamos. 
Se bem que desde sempre arreigada à tradição  portuguesa, a arte de pegar toiros, tem origens bem mais modestas, que o que se pode inferir do seu desempenho por uma figura real, que aliás várias houve em épocas posteriores à citada. 
De facto, manda o bom senso que se reconheça que o acto de pegar encontra  primordialmente a sua génese em duas simples necessidades distintas. 
Por um lado a que emerge da actividade veneratória, que  não se esqueça o toiro como espécie de caça, em que numerosos pagens e lacaios acompanhavam os seus senhores no acto (que também constituia adestramento para a guerra), e se viam obrigados a agarrar os toiros para os  rematar, esquartejar e carregar, e por outro, nomeadamente a partir de inicios do século XVII, no especializar da juventude rural das zonas ganadeiras em tal prática por consequência  directa dos maneios em que se mostrava necessária a marcação a fogo do gado da terra com o símbolo indicativo de propriedade. 
Em ambas as circunstâncias, a destreza com que a  manobra era executada credibilizava pela positiva os seus autores, face sobretudo ao carácter sagrado do animal sujeito, e prontamente o papel de heróicos protagonistas que os elementos do povo assumiam, foi por assim dizer "usurpado" pelos senhores, que não queriam, é óbvio, deixar por mãos alheias e menores o mérito de tal alarde de valor. 

Foram correndo os anos, e com a naturalidade inerente a tudo o que por direito se insere na matriz cultural de um povo, o acto de pegar assumiu progressivamente o seu lugar na nossa  corrida, sendo que em meados do século XVIII já se anunciavam nas ordens de lide dos festejos as entradas em praça dos homens de forcado, "forcado" que mais não é que a adaptação pura e simples da  alfaia agrícola com o mesmo nome para uso na arena, sobretudo necessária porque passou a fazer parte das atribuições de tais elementos a segurança da, então em moda, escadaria de acesso directo da arena ao camarote real, estrutura que se entende face ao hábito do cumprimento régio aos que na lide se distinguiam. 

Não cabe nesta breve súmula que se historie detalhadamente o acervo documental que justifica a existência da forcadagem ao longo dos séculos, cabe isso sim que se desmistifique a história forjada que repetidamente se reproduz, de que a origem dos forcados provem da evolução da presença na arena de "alabardeiros", e, depois de "monteiros da choca" (dado que estes, se a alguma coisa deram origem foi à recolha de pampilho em riste que hoje os campinos protagonizam). 

Os grupos de moços de forcado assumem, isso sim, no tecido  taurino português, uma evolução perfeitamente natural e genuína, que se refina quando às vertentes de origem veneratória e rural se adendam as componentes de afirmação da  juventude urbana, em que fidalgos ou jovens bem na vida por teres e haveres familiares, também querem descer às arenas e enfrentar toiros a peito descoberto, em acto que se aproxima das tauromaquias porque intrinsecamente constitui um rito de superação. 
Do enfrentamento heróico das primeiras hostes de homens aos toiros aos dias de hoje, o caminho é longo. 
Hoje, os grupos de forcados amadores agrupam, podemos dizê-lo, alguns dos  melhores elementos da juventude portuguesa, e pela organização, entrega, espírito de entreajuda abnegada solidariedade, e tudo o de mais de bom de que se revestem, modelo de virtudes, são um repositório estimável de bons valores da gesta lusa, que importa aqui e agora encarecer. 
Com o seu estar nas arenas, possibilitam motivo que baste para que se reflita a génese da festa de toiros enquanto manifestação de culto eminentemente telúrica, que nos confronta com a força criadora da natureza e com a realidade da nossa humanidade. 

Poderão os mais puristas na análise encontrar dificuldades de enquadramento das "pegas" nas tauromaquias clássicas, mas que valha e se diga, que hoje pegar toiros é uma arte, e as artes quando não se explicam, sentem-se!! 
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Um artigo do Dr. FRANCISCO 
DA COSTA XAVIER / Imagem : 
JOSÉ CANHOTO, reportero 
gráfico taurino. 
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O Dr. Domingos da Costa Xavier foi um proeminente médico veterinário, cronista, letrista e uma das figuras mais marcantes da cultura taurina em Portugal. Reconhecido pela sua profunda erudição e capacidade comunicativa, destacou-se como comentador de televisão e um dos críticos tauromáquicos mais respeitados do país.
Nasceu em Coruche, filho de Gregório da Costa Xavier e Teresinha de Jesus Vas Carneiro, mas fixou residência desde muito jovem na cidade de Setúbal. Faleceu a 7 de dezembro de 2022, aos 80 anos, vítima de doença prolongada. As suas cerimónias fúnebres realizaram-se em Alcácer do Sal.
Na sua juventude, a forte ligação à Festa Brava levou-o a vestir a jaqueta de forcado.
Exerceu a profissão de médico veterinário, tendo assumido, entre outras funções, a responsabilidade pela lota de Setúbal.
Enquanto técnico e intelectual, teve um papel ativo na defesa das tradições locais, sendo recordado pelo seu envolvimento institucional em municípios de forte matriz taurina, como Barrancos.
Alcançou grande notoriedade pública como comentador taurino da RTP (Televisão Pública Portuguesa), apresentando programas e transmissões de corridas de touros, além de ter trabalhado como radialista.
Colaborou com diversos jornais e publicações especializadas. Na fase final da sua vida, destacaram-se as suas crónicas na Revista Equitação, caracterizadas pelo seu tom didático, técnico e rigoroso. Era amplamente elogiado pela sua escrita elegante e pelo conhecimento profundo do toiro e da lide ("sabia do que falava e escrevia do que sabia").
Autor de livros focados na cultura campestre e na tauromaquia, destacando-se a obra Lá Longe na Campina, publicada em 1997 pela editora Equipress.
Além de escritor e jornalista, foi também letrista de fados, autor de textos e mecenas cultural, apoiando ativamente o desenvolvimento das artes na sua comunidade.








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