No verão aflora o que o inverno dissimulou entre camadas de roupa, e os cheiros. O calor desfaz os disfarces e põe a nu as liturgias que cada um escolheu. E tal como os cheiros, há fés boas e fés más.
As más são barulhentas, selectivas e burocráticas, oferecem absolvição fácil e inimigos abstractos. A boa é antiga, é a dos touros, dos toureiros e dos seus valores. Não é uma ideologia de gabinete, é uma liturgia que se vive com o corpo. É concreta e cheira a albero, a pintura fresca e a amigos que se reencontram em redor do touro.
Os toureiros são um pouco nossos filhos, lançamo-los à fortuna do ruedo e vemo-los caminhar na linha que dá mais medo. É uma fé que exige coragem real, não hashtags, que admite a morte como parte da vida e transforma o risco em arte e em comunidade. Não há nela a pretensão de salvar o planeta a partir de um ecrã. Há a aceitação da natureza tal como é, bela, dura e verdadeira. E, ao contrário do que muitos julgam, não exige miséria performativa nem renúncia ao belo. As outras fés são piores precisamente porque se apresentam como melhores e mais evoluídas.
A fé ambientalista é a da amnésia radical. Acredita que a burocracia pode vencer as leis da natureza. Transforma o campo num labirinto de permissões para limpar um simples mato, de tal forma que os montes se tornam combustível. Já não olha para o verde da paisagem, olha para os níveis de carbono. A resposta a qualquer crise é sempre a mesma, transição energética e o desdobramento de infraestruturas que acabam por devorar o terreno verde. Não há nada de divino nem de aéreo nas turbinas ruidosas alinhadas em ordem de batalha, nem nos campos cobertos de painéis. As culpas caem sempre, abstractamente, sobre as alterações climáticas. Não se tentam melhorar as políticas, constrói-se uma arquitetura normativa cada vez mais complexa a partir de um escritório, ignorando a experiência de séculos. Agrava a devastação sob a forma de oferecer um remédio. Pretende instalar renováveis só onde haja sol e vento, e, para acelerar a transição, destrói as paisagens do mundo rural. É uma liturgia que despreza o concreto em nome do abstracto e chama progresso ao que transforma o campo num parque industrial disfarçado de virtude.
Já a fé da hipocrisia é a da grande maioria silenciosa. Metade do mundo, ou mais, é hipócrita. Sem resolver este problema, os outros são miragens num mundo cada vez mais egoísta, violento e ignorante. Conceitos hoje básicos nas sociedades evoluídas (liberdade de expressão, condenação da violência doméstica, etc.), são invocados selectivamente, conforme a moda e o número de likes. É a fé de quem julga a causa já encaminhada e, entretanto, continua a viver segundo as regras antigas quando ninguém vê.
A fé da empatia selectiva e do animalismo é a sua irmã gémea. Chora pelo animal e fecha os olhos ao homem. Condena o touro e absolve outras formas de violência quando convém. É a fé de quem transforma a compaixão num instrumento de superioridade moral, enquanto permanece cego às consequências reais das suas posições. Não se preocupa com os debates urgentes, limites reais às emissões, problemas de segurança das baterias dos carros eléctricos, o equilíbrio dos habitats, porque o importante é o sinal de virtude, não a realidade. Ahhhh, e se o Javier Bardem me ouve, ele que adora causas ambientais, mas não prescinde da poluição dos seus voos privados ou do seu iate. O que interessa é que é contra os touros. Tudo muito coerente. E última hora, acabou de dar ânimo aos “protestantes” franceses. O que importa é seguir a corrente, neste caso, a woke.
E mal saímos do Verão, eis que o mundo enlouqueceu.
E depois há quem pague o preço de não ser carneiro. Quem diz o que pensa, adoro! Quem não tem medo, e se há alguma coisa de que posso orgulhar nesta vida, é que mesmo sendo difícil ser uma “miúda” com causas numa sociedade que as perde em prol dos números, medo nunca tive.
Quem é anti hipocrisia e, ainda por cima, ousa gostar de moda e luxo. Tenham os mínimos, por favor, é só ridículo, está ao nível de uma pessoa feia que fala como se fosse abençoada com 2 palmos de cara, ou sobre moda, quando o estilo lhe passou todo ao lado na distribuição de dotes. Outra coisa de que me posso orgulhar, é de estar bem tanto na tasca mais tasca, como num hotel de sete estrelas de Birkin na mão, sem ser hipócrita. Não se anda a apregoar que “ser socialista é ter muito pouco e estar disposto a dar muito”, como fez o vizinho Zapatero, e afinal gosta de joias e das caras e pouco declaradas. Nada contra socialistas, mas contra a falta de coerência. A autenticidade não exige miséria performativa. Exige coerência. A fé boa dos touros não pede que se renuncie ao belo nem ao prazer, pede que se aceite o risco e a verdade do que se é.
Enquanto isto, uma vez mais, Portugal lá vai atrás de nuestros hermanos, sempre atrás, atrasados, mas no rasto, este nosso país que já tem ovos rotos como prato típico. E Espanha, vai atrás de França, agora pensem. Não é admiração. É desvio. Há um conforto estranho em comentar a casa alheia com o rigor que se recusa à própria. A fronteira discute-se como se fosse um episódio de uma série, e a emigração descontrolada trata-se como um assunto de quem ainda não percebeu que uma porta aberta sem critério não é hospitalidade, é a demissão de decidir quem entra, com que ofício, e para que vida. Assistimos à invasão de Ceuta, sim, invasão, e não vale a pena camuflar de empatia fofinha, há anos que digo, com conhecimento de causa, que este tipo de pessoas não vem para a Europa fazer nada de bom, muito menos integrar-se, caso contrário, iriam para países árabes! Mas se estes próprios dizem que escancarámos as portas à escumalha que estes países mais próximos culturalmente, não quiseram... vejamos, as minhas queridas França e Itália, certo, a educação pode sempre melhorar, mas não me venham dizer que é incendiando escolas, que se resolvem as coisas. Não é normal incendiar escolas. Certo, o custo de vida está altíssimo na Europa, mas acreditam mesmo que esta gente defende alguma coisa, ou são agitadores e bárbaros? Estudantes? Sim, sim.... incendiar uma Câmara Municipal em Limoges, e carros de polícia e bombeiros, reivindica mesmo o quê? Pilhar e saquear lojas de luxo? Também adoro uma boa mala Dior ou Hermès, mas isto é o quê mesmo? Só se já estiverem a preparar as suas malas de viagens para voltarem para casa. Saquear a FNAC e a Apple? Só se for para se prepararem para a educação na era digital...
A inveja, outra vez. O vizinho, outra vez.
O caso de Lisboa por exemplo, ok, a habitação é um problema gigante, mas não é de agora! Há anos, que é um problema, são anos de más ou a ausência total de políticas que prevenissem o estado actual das coisas! E a ameaça clara ao primeiro-ministro? E há quem romantize estes movimentos, o que também, não é normal... vândalos, e os pouco evoluídos somos nós, os taurinos, claro!
E nisto, vem a minha adorada comunicação social a manipular tudo, onde é que já ouvimos isto? Certo, com os touros, com os animais... Que “normaliza” estes acontecimentos, e diaboliza a polícia, por exemplo. Mas alguém quer uma sociedade sem ordem? Sem segurança? É que depois disto, só sobra o caos e a anarquia!
Acreditam mesmo que todos estes “agitadores” ou como se diz agora “activistas”, têm boas intenções? Que lutam por uma causa digna? Ou acham que é apenas uma confusão medonha, de violência gratuita, e que são contra tudo, só porque sim?
Aqui fica a fórmula romântica de sucesso:
- montar tendas ilegalmente em espaço público
- viver nelas em comunidade e insalubridade
- aparecer nas televisões
- protestar contra tudo e todos
- agitar bandeiras, de preferência, uma, e já sabem qual é
- cantar e gritar palavras de ordem, só porque sim
- soluções concretas para o problema da habitação? Tranquilos, não é preciso ter!
- ser claramente, anti touradas
Quase que me “enamoro” com tanta perfeição. Querem o quê mesmo? Subsídios para existir apenas? Também eu! Que tenho muita coisa gira para fazer, e não gosto nadinha que a carrada de impostos que pago vá para subsídios indevidos, para baixas fraudulentas, para um SNS atolado em dívidas de um turismo de saúde, etc.!
E não adoram ver a estética moral e romântica que se vê por estes dias na Puerta del Sol? Normalizemos que estão ali apenas por conta da habitação e crise económica, que seria de alguma forma, até compreensível, finjamos que não existem outros protestos associados, bandeiras da Palestina por todo o lado, não entendo porque esta fixação com a Palestina, e o Sudão? E Mianmar? Congo, Iémen, e perseguição aos cristãos na Nigéria? Empatia selectiva, será? Também vemos ataques, ofensas graves à Presidente da Comunidade de Madrid, Isabel Dias Ayuso, que para além de uma violência e falta de respeito atroz, é um verdadeiro crime!
Mas o melhor, guardei para o final, para além do cheiro e imundice que todos podemos imaginar neste momento, neste acampamento altamente bem organizado, com ruas, farmácia, restaurante, etc, que só faz é prejudicar a imagem e a economia de Madrid, adivinhem lá, que outra causa está lá plasmada? Isso mesmo, acertaram!
Curioso, não acham? Portanto, sabem lá sobre o que protestam, por tudo e por nada, o que interessa é protestar, fazer desacatos! Tanto pedem tolerância, quando os intolerantes, são eles!
Ainda não aprenderam que quanto mais estas facções hegemónicas apertam a dissidência, neste caso, a tauromaquia, mais forte a torna? Este é exactamente o mecanismo imunológico das comunidades abertas e plurais, nas quais se torna interessante o que é proibido. Quanto mais tentam destruí-lo, mais forte se torna. E está bem que assim seja.
Ao mundo viemos para veranear. O verão põe a descoberto as liturgias, as fés e os cheiros. As más oferecem absolvição fácil, inimigos abstractos e a ilusão de virtude sem custo. A boa, a dos touros, dos toureiros e dos que se reúnem em redor deles, oferece o cheiro da praça, a coragem de caminhar na linha do medo e a sorte de nos reencontrarmos, inteiros, em redor do que nos faz humanos.
As outras fés podem continuar a errar. Esta, pelo menos, não mente sobre o que cheira, e cheira muito bem.




