Realçar alguns dos momentos mais importantes do dia 16 de Outubro de 1966, apresenta-se à primeira vista, uma tarefa árdua e quase impossível de realizar. Mas com esforço e dedicação, torna-se fácil para quem procura na história, mais do que viver a sua afición, compreender o contexto de tempos não vividos, mas marcantes na história do toureio.
Aquele foi sem dúvida, um dia marcante para dois países irmanados por um conjunto de regras bilaterais de sã convivência e pela aproximação cultural existente entre Portugal e Espanha, nomeadamente e no tema que nos importa, a Tauromaquia.
O dia 16 de Outubro de 1966 marcou Portugal e Espanha, por boas e más razões. Não que a despedida de um toureiro seja uma boa razão, ou que pelo contrário, seja um mau momento. A linha do tempo no toureio, define a longevidade de quem pisa uma arena, de acordo com um conjunto de circunstâncias que não estão ao alcance do comum dos aficionados.
16 de Outubro de 1966 : Saragoça: despedida das arenas do matador de toiros Fermín Murillo (três orelhas), numa tarde em que alternou com Diego Puerta (quatro orelhas) e José Fuentes (quatro orelhas), na lide de toiros de Lisardo Sanchez (5) e Vicente Charro (1), sendo o último que lidou, o "Batallón".
16 de Outubro de 1966: Madrid : despedida das arenas do matador de toiros António Bienvenida, lidando seis toiros em solitário, das divisas de Urquijo, Graciliano Pérez Tabernero (orelha), Montalvo, Salvador Guardiola (6⁰, duas orelhas) e El Pizarral (2).
Como curiosidade, quando o toureiro se preparava para bandarilhar um dos toiros, a banda de música da Monumental de Las Ventas, tocou pela última vez durante a lide de um toiro. Foi o seu irmão Pepe quem lhe cortou a coleta. Continuou a actuar em festivais, até reaparecer em 1971.
16 de Outubro de 1966: Lisboa (Campo Pequeno ): festival a favor do Internato de Santa Isabel, no qual e no dia em que fazia 20 anos de idade, foi colhido pelo toiro "Carvoeiro ", de Rio Frio, o cavaleiro Joaquim José Correia, "Quim Zé Correia ", no momento em que ao colocar o terceiro ferro comprido, montando o "Tirol ", o imponente riofrio alcança o cavalo em tábuas, perdendo as mãos e caindo o jovem marialva desamparado, batendo com a cabeça no estribo, falecendo quase de imediato. Completavam o cartaz, o cavaleiro José Samuel Lupi e os matadores Paco Camino, Chamaco, Júlio Aparicio e Paco Pallarés, assim como os Forcados Amadores do Montijo.
16 de Outubro de 1966 : Barcelona : inesperada a alternativa do diestro aragonês Abílio Langa "El Aragonés" (ou "El Pastor ", como também era conhecido), apadrinhado por Luís Segura, na presença do venezuelano Efraín Girón, lidando toiros de Bernardino Giménez.
LA HISTORIA DE ABILIO LANGA
Abílio Langa Pelegrín de seu nome completo, nasce no pueblo aragonês de Morata de Jiloca (Zaragoza), no dia 1 de Novembro de 1936, num tempo de grande conturbação política e social do seu país, mas onde os toureiros eram considerados mais famosos que qualquer outro artista, sinal de que a festa ultrapassava as fronteiras dos estratos sociais e congregava toda a sociedade em torno de uma actividade cultural como é o toureio.
É de muito novo que ganha o interesse pelo toureio! Com uma infância marcada pela pobreza quase extrema, divide os seus dias entre o percurso escolar e o guardar de gado da família nas serranias do seu pueblo natal, como forma de preservar o sustento familiar. Os tempos livres, passava-os a deleitar-se com o cinema ambulante que visitava a sua terra, ou com as capeas dos pueblos da sua região, onde os mais audazes eram afoitos, ou muitas vezes tombavam perante o desígnio de enfrentar a morte, pagando com a vida.
Dá os seus primeiros passos precisamente no toureio de rua e, uma vez ajudado, vai aprendendo as bases do ofício, que não haveria de ser o que o levou à ribalta. Apresenta-se em público no meado da década de 50 e só praticamente no final desta, começa a ganhar espaço em algumas novilhadas económicas, o que lhe permite ganhar oficio suficiente para debutar com picadores no ano de 1962.
Toureiro inconstante, alternava a sua presença em espectáculos picados, como em festejos onde a presença dos piqueros não era requerida, assim fazendo de igual forma, com o modo como se fazia anunciar, umas vezes "El Aragonés ", outras "El Pastor", nunca se definindo no apôdo pretendido e muito menos, como toureiro que desejava ser.
A viver em Sevilha naquela altura, nesta indefinição andou por um período de doze anos, até ao dia em que, contratado por Balañá para tourear em Barcelona uma novilhada, resolve pedir para que troquem o cartaz e os toiros e afixem, o anúncio da sua alternativa inesperada. Chegado o dia 16 de Outubro de 1966, Abilio Langa, faz o paseo na Monumental catalã, acartelado com Luís Segura e o venezuelano Efraín Girón, para despachar uma corrida de Bernardo Giménez, que pouco mais permitiram, do que a vontade de agradar da terna actuante. O toiro da alternativa deu pelo nome de "Campesino ".
Sem confirmar a alternativa, Abílio Langa desaparece do mundo do toureio e vamos encontrá-lo embrenhado no mundo do cinema, onde aí sim, ganhou alguma fama e prestigio, nas numerosas produções cinematográficas em cujos elencos participou, casos de "Lourenço da Arábia ", entre outros, tendo conhecido e contracenado com grandes actores como o foram Peter O'Toole, Anthony Quinn, Ava Gardner, entre outros. Esta sim, foi a órbita que o fez gravitar grandemente no seio de todas as figuras de época do espectáculo e do desporto, sem que contudo, tivesse deixado alguma vez de se sentir toureiro.
LA HISTORIA DE FERMÍN MURILLO
No mesmo dia em Espanha, o 16 de Outubro ficava marcado pela despedida das arenas de dois toureiros, que embora distintos entre si, marcaram toda uma época gloriosa, à qual a Festa ficaria eternamente agradecida. Falo claro está, de Fermín Murillo e António Bienvenida.
Fermín Murillo Paz de seu nome, nasce em Saragoça a 4 de Novembro do ano de 1934.
Inicia a sua trajectória e uma vez concluida a instrução primária e apreendidas as bases iniciais do toureio, numa quadrilha de niños toreros das muitas que existiam nesses tempos, apresentando-se em Barcelona, ao lado de José María Clavel e Enrique Molina, entre outros.
A sua incursão no seio deste elenco juvenil, serve para que o jovem ganhe saber, experiência e oficio ao longo de umas quantas temporadas de bezerrista, até pisar a praça da capital espanhola em duas tardes seguidas no ano de 1951 e ali regressar no dia de S. José do ano seguinte, já acompanhado dos do castoreño e acartelado com os companheiros da quadrilha juvenil, Clavel e Molina.
Sem dar grandes notas de destaque ou progressão, pelo menos em número de festejos lidados, faz umas quantas temporadas como novilheiro com picadores e a 21 de Abril de 1957, na praça da Misericordia da sua Saragoça, recebe a alternativa das mãos de Manuel Jiménez "Chicuelo II", que na presença de Jaime Ostos, lhe cede a lide e morte do toiro "Bonito", de Miura. Confirma o doutoramento na capital espanhola a 8 de Setembro seguinte, com o toiro "Minerito ", de Escudero Calvo, que lhe foi cedido por Mário Carrión, na presença de Mariano Martín Carriles, que foi colhido com gravidade, tal como Murillo, que também teve que passar pela enfermaria.
As primeiras temporadas como matador de toiros, são praticamente apagadas, ou seja, nada mais somou que um par de corridas de pouca expressão e em que sofre algumas cornadas sérias, isso sim, que enriqueceram e muito, o seu portfólio.
Contudo, o ano de 1964 traz uma mudança significativa do panorama para Fermín Murillo, já que à custa do seu valor e do seu querer, vê a sua carreira subir acima da linha de água, ao triunfar rotundamente na tarde de 19 de Abril de 1964, em Madrid, na confirmação de alternativa de Vicente Fernández "El Caracol ". A carreira de Fermín Murillo acabava de dar um giro de 180⁰ e quando ninguém o fazia prever, resolve despedir-se das arenas a 16 de Outubro de 1966, na praça da sua terra.
Regressa em 1970 e toureia pela última vez em Barcelona, na tarde 23 de Julho de 1972, alternando com os matadores jaime Ostos e António José Galán, saindo por diante da terna a abrir cartel, o afamado rejoneador jerezano Álvaro Domecq Romero.
Valente e estoqueador corajoso, há que juntar a estas características, aquilo que é fácil definir aos toureiros que não estão no tirón de figuras : Fermín Murillo era um toureiro curtido nas corridas mais duras. Faleceu a 29 de Outubro de 2003 em Valencia.
LA HISTORIA DE ANTONIO BIENVENIDA
Neto do bandarilheiro Manuel Mejías Luján "Bienvenida" e filho do matador Manuel Mejías y Rapela "Bienvenida " (ou "El Papa Negro", como o apelidou o critico Don Modesto), Antonio Mejias Jiménez de seu nome completo, nasceu em Caracas (Venezuela), a 25 de Junho de 1922, sendo o terceiro de um conjunto de seis irmãos (Manuel, José, Rafael - assassinado a tiro em Sevilha muito novo ainda-, Ángel Luís e Juan), todos toureiros, mas em que ganharam especial relevância, Manuel, Pepe e António, precisamente.
Apesar de baptizado e dali se ter considerado sempre natural, a família Bienvenida muda-se no inicio da década de 1930 de Sevilha para Madrid, para fugir à memória do trágico momento que afectou a familia, sendo precisamente ali, na capital, que mais se admirou a arte de António.
Formado como toureiro pelo seu próprio pai (como todos os irmãos), apresenta-se em público pela primeira vez com 8 anos de idade e aos 12, apresenta-se em Sevilha num festival, no qual corta o rabo a um eral de Belmonte. Veste o seu primeiro chispeante em Córdoba a 3 de julho de 1937, tendo Paquito Casado como companheiro e tendo oito dias depois pisado o albero maestrante, ao lado dos seus irmãos Manolo e Pepe, tendo sacado dois rabos en el esportón, despertando interesse junto dos sevilhanos.
Estreia-se com os piqueros em Cádiz, na tarde de 26 de Junho de 1938, num mano a mano com Pepe Luis Vázquez e num momento em que a tragédia voltava a rondar a sua familia, já que o seu irmão Manolo havia contraído tuberculose, à qual sucumbiria em Agosto seguinte, o que motivaria o interregno na sua caminhada nesse ano.
Regressa na temporada de 1939 e nesse ano toureia duas tardes em Madrid, a primeira, a da sua apresentação, ao lado de Joselito de la Cal e de Rafael Ortega Gomez "Gallito " e a segunda, a 24 seguinte, quando encarou novo mano a mano com Pepe Luís Vázquez.
O ponto de afirmação da sua trajectória no escalão intermédio, ocorre na tarde de 15 de Junho de 1940, quando actuando em Sevilha, num confronto com Eugenio Fernández "Angelete", por colhida deste, se viu diante de cinco utreros, dos quais obteve seis troféus; e a 3 de Novembro do referido ano e na mesma praça, onde apresenta o famoso "quite de la escoba"; e por fim, a tarde de 18 de Setembro de 1941 em Madrid, com a faena icónica ao "Naranjito", que são pontos chave na sua importância como valor sólido de entre os novilheiros.
Arranca no inicio de 1942 a tourear festivais e algumas corridas como preparação para a alternativa, que é anunciada para o dia 5 de Abril, em Madrid, com toiros de Miura e o seu irmão Pepe de padrinho. Mas ao ficar a corrida remendada com dois toiros de outra ganadaria que não a anunciada, os irmãos Bienvenida negaram-se a tourear, acabando detidos pela policia e sendo a corrida adiada para quatro dias depois. O toiro da cerimónia deu pelo nome de "Rosquerito". Confirma o doutoramento a 2 de Julho seguinte no mesmo cenário e somando dois apêndices, ratificando-o como um valor preferido dos madrilenos.
Mas nem tudo são rosas e praticamente três semanas após o triunfo madrileno, sofre em Barcelona gravissima cornada no abdómen, que o deixa entre a vida e a morte e o aparta das arenas durante largo tempo. O toiro causador foi o "Buenacara ", de Trespalacios.
Regressaria de novo à actividade, sempre com o mesmo pundonor e maestria reconhecidas. Nunca procurando ser um toureiro que quisesse mandar na festa, ou tourear muitas corridas em cada época, António Bienvenida tinha o seu enorme prestígio assente na qualidade do toureio que executava.
Entre momentos bons e tardes más, construiu uma carreira plena de qualidade e confiança junto do aficionado nos quatro cantos do mundo em que o seu nome era anunciado, alimentando nas conversas de rua, o enigmatismo que fizeram de António Bienvenida, um toureiro sem igual. Para defender a profissão, encetou uma feroz campanha contra o afeitado, o que não foi bem visto pelos companheiros e que o levou a demitir-se da presidência do Montepío de Toureiros, no ano de 1952.
Com altos e baixos, vai fazendo a sua trajectória, adorado por uns, maltratado por outros, mas sempre com respeito verdadeiro pela profissão, pelos públicos, pelos toiros.
Em 16 de Outubro de 1966 resolve afastar-se. Os problemas de natureza muscular que começaram a atormentá-lo no final dos anos 50, eram cada vez mais evidentes e por isso havia que parar. Actua em solitário em Madrid (uma mais, entre as muitas que ali somou, de que se destacam as seis em dia da final da Taça do Rei, com lotações esgotadas), cortando apenas três orelhas, a um lote composto por seis toiros de várias divisas.
Reaparece em 1971, para se retirar em definitivo três anos mais tarde e um ano depois, sucumbir às mazelas causadas pela "Conocida", de Amélia Perez Tabernero, numa tenta.
LA HISTORIA DE QUIM ZÉ CORREIA
Entretanto, em Portugal, ocorre um acontecimento diferente dos enunciados em Espanha. Em Lisboa e na praça de toiros do Campo Pequeno, estava anunciado um festival taurino a favor do Orfanato-Escola Santa Isabel, no qual participavam várias figuras do toureio, entre as quais, um jovem cavaleiro que naquele 16 de Outubro de 1966, completava 21 primaveras, sem saber que seriam as últimas que assinalaria na sua vida.
Joaquim José Antunes Correia, de seu nome completo, "Quim Zé Correia " para os amigos e familiares, viu a luz do dia no 16 de Outubro de 1945, em Évora. Muito cedo começa a evidenciar o gosto por cavalos e para o toureio. É pela mão de seu avô materno, que começa a tomar os primeiros contactos com os cavalos e mais tarde, igualmente pela mão daquele, recebe os primeiros ensinamentos de Mestre Simão da Veiga Júnior e de António Anão.
Posto que estava para começar a rodar, os seus mestres colocam-no a funcionar em festejos de fraca amplitude, como amador em distintas garraiadas que
entretanto se realizavam um pouco por todo o Alentejo. Utilizando um cavalo de nome "Guerrita", ágil e com inspiração toureira, não foi dificil a Quim Zé Correia captar as atenções, fscto que o levou ao Campo Pequeno pela primeira vez, em 1963, onde o antigo matador de toiros e empresário manuel dos Santos, reconheceu as qualidades do jovem marialva.
Faz o resto daquela época e toda a seguinte em plano de revelação, entusiasmando os aficionados e ganhando uma notoriedade que não chegou a ver consolidada de todo. A alternativa surge no Domingos de Páscoa 18 de Abril de 1965, data da abertura oficial da temporada não só em Lisboa, mas em todo o território nacional, como era tradição. Foi seu padrinho D. José de Ataíde, tendo actuado de testemunhas, os matadores Armando Soares e Manuel Álvarez "El Bala". Os toiros eram do criador alentejano D. Diogo D'Affonseca Passanha.
A temporada de 1965 segue em progressão, com o jovem marialva eborense, entretanto a viver na Cova da Piedade, a ver reconhecida a sua irreverente juventude, associada a um estilo de toureio classicista, que o apontavam como uma promissora figura do toureio em potência, já muito requisitada pelas empresas, para formar os cartéis das suas organizações e a quem se apontava já, uma rivalidade com o cavaleiro da época José Mestre Baptista.
O festival do Orfanato Escola Santa Isabel, tinha cariz beneficente e era organizado pelo aficionado João de Castro, que para aquele dia 16 de Outubro, apresentou em Lisboa, José Samuel Lupi e Quim Zé Correia a cavalo, os matadores António Borrero "Chamaco", Paco Camino e Paco Pallarés, bem como os Forcados Amadores do Montijo comandados por Rafael Figueiredo, perante toiros de Rio Frio. Após a tragédia deste dia, o festival não voltou a ser organizado.
O tempo esse estava de chuva e a arena lisboeta algo pesada. O festejo havia começado bem com a actuação de Lupi e no inicio da lide de Quim-Zé, o cavalo que montava naquela tarde, o "Tirol ", escorregou e caiu sobre o cavaleiro, sendo acometido e atingido pelo "Carvoeiro ", ficando prostrado e inanimado na arena. A prontidão do socorro foi imediata, mas os efeitos produzidos pela colhida, levaram a que o jovem cavaleiro desse entrada no Hospital de Santa Maria já em morte cerebral, não havendo qualquer possibilidade de fazer regredir o desfecho inevitável.
Quim Zé Correia foi o segundo cavaleiro a tombar no Campo Pequeno, depois de Fernando de Oliveira em 1904 e o seu cortejo fúnebre, o primeiro a atravessar a Ponte António Oliveira Salazar, que havia sido inaugurada nesse mesmo ano.
LUIS MIGUEL BARROSO
Tribuna da Tauromaquia Ibérica




