Há muitos anos que afirmo que, nas redes sociais, proliferam perfis falsos de anti-touradas, muitos deles construídos para criar a aparência de um movimento popular que, na realidade, é alimentado por estruturas organizadas e por interesses ligados à indústria PET.
A abertura da consulta pública para a inscrição da «Corrida de Toiros em Portugal» no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial tornou isso particularmente evidente. Bastou surgir esta iniciativa para vermos multiplicarem-se os habituais perfis com fotografias de gatinhos, identidades pouco claras e uma actividade quase exclusivamente dedicada ao ataque à tauromaquia.
Só que, perante o desespero provocado pela possibilidade de a tauromaquia ser reconhecida como património cultural, começaram também a aparecer os verdadeiros perfis. E, ao consultar esses perfis, percebe-se uma realidade que há muito venho denunciando: muitas destas posições têm origem e ligações no Norte da Europa.
E aqui começa a ser impossível separar a campanha contra a tauromaquia de uma visão muito mais ampla para o território português.
Uma visão de rewilding financiada por interesses que não querem pessoas no interior, não querem agricultura, não querem pecuária e não querem as actividades que durante séculos construíram e mantiveram estas paisagens.
Querem o interior despovoado, transformado numa espécie de reserva natural à disposição de quem vive longe dele. Primeiro retiram o homem. Depois retiram a agricultura. Depois retiram o gado. E, finalmente, apresentam-nos a solução: devolver ao território espécies que nunca fizeram parte da sua realidade recente, como os bisontes, como se o futuro do interior português tivesse de passar pela criação de uma Europa selvagem artificialmente reconstruída.
É esta visão que está em causa.
E a tauromaquia incomoda-a porque o toiro bravo representa precisamente o contrário: território ocupado, agricultura, ganadarias, conhecimento transmitido entre gerações, homens e mulheres que vivem no campo e uma relação profunda entre o animal, a terra e as comunidades.
Não estamos apenas a discutir touradas.
Estamos a discutir se o interior de Portugal continuará a ser um território vivo, trabalhado e habitado pelos portugueses ou se será progressivamente transformado num cenário de rewilding para satisfazer uma determinada visão ambiental importada do Norte da Europa.
E é por isso que esta discussão merece ser levada muito a sério.
Porque quando nos querem retirar o toiro, a agricultura e o homem do território, não estão apenas a mudar uma paisagem.
Estão a mudar o próprio território e aquilo que Portugal é.
Eng. PAULO TOMÉ
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O Instituto Património Cultural abriu a consulta pública para a inscrição das “corridas de toiros em Portugal” no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, segundo um anúncio publicado nesta em Diário da República Portuguesa
A consulta pública tem lugar mais de cinco anos depois da abertura do processo, por proposta da Associação de Tertúlias Tauromáquicas de Portugal, que levou a então Direção-Geral do Património Cultural a solicitar o aperfeiçoamento do pedido já em 2022.
“A Corrida de Toiros é a expressão plena da ‘tauromaquia profissional’, a que representa a tauromaquia na sua forma institucional e se manifesta num conjunto de procedimentos codificados. A sua realização decorre em recintos próprios, as praças de toiros, devidamente autorizados e fiscalizados pela entidade estatal competente”, pode ler-se na breve entrada existente na plataforma MatrizPCI.
A caracterização refere que existem, em Portugal, vários tipos de corridas de toiros, desde a “Corrida de Toiros à Portuguesa”, onde atuam cavaleiros tauromáquicos e forcados e a “Corrida de Toiros a Pé”, composta apenas por “matadores de toiros”, enquanto na “Corrida de Toiros Mista” atuam “cavaleiros tauromáquicos, matadores de toiros ou novilheiros e forcados”.
Já as “Novilhadas” são “espetáculos tauromáquicos onde atuam jovens cavaleiros praticantes e/ou novilheiros, ou seja, os toureiros que ainda não tiraram a alternativa de cavaleiros ou matadores de toiros, que corresponde ao acesso ao escalão máximo nas suas categorias profissionais”.
“Para além destes, existem outros tipos de espetáculos tauromáquicos, consagrados na Lei, que ocorrem em condições específicas consoante a sua natureza”, acrescenta o mesmo texto.
A consulta pública decorre ao longo de 30 dias e o Património Cultural deverá tomar uma decisão no prazo de 120 dias após o fim desta.
Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que, em 2025, perto de 300 mil pessoas foram a touradas, acima das 244 mil do ano anterior.
Segundo a Inspeção-Geral das Atividades Culturais (IGAC), em 2025 foram autorizados e realizaram-se 147 eventos desta prática, com atividade em 63 concelhos.
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