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O artigo da Dra. Ester Tereno) "E sim, vamos citar de frente!"

E sim, vamos citar de frente! Há uma regra simples no teatro da virtude, o peito só é livre quando serve a causa certa. Sim, falo de touros, e de maminhas, mas calma, não é p…

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E sim, vamos citar de frente!


Há uma regra simples no teatro da virtude, o peito só é livre quando serve a causa certa. Sim, falo de touros, e de maminhas, mas calma, não é preciso censura, nem bolinha vermelha no canto superior direito. 

Se Sydney Sweeney o mostra, ou sequer o sugere, com aquele sorriso de quem sabe que o corpo também é argumentação, o mundo inteiro dispara. Só por ser feminina, jeans, genes, o corpo sem pedido de desculpa, confiante, vira eugenia, objectificação, arma da direita. Se, porém, o mesmo peito aparece à porta de uma praça de toiros, em protesto contra a tauromaquia, como já o fizeram em Valência, em Pamplona, em Medellin, etc. Ahhh, aqui já não é carne, já é manifesto. Já não é maminha. É causa. Certo.

A hipocrisia não precisa de tratado. Basta o mesmo par de seios e a pergunta de quem os autorizou. 

Com tanto problema sério actual, e o problema é isto, a sério?


Por falar em hipocrisia, não vale a pena dar importância a quem não a tem. Os vídeos a gozar com a entrevista de Manuel Telles Bastos provaram-no com a delicadeza de um recorte mal feito. O cavaleiro saíra da arena roto, a agradecer a Deus e a Nossa Senhora a força que lhe deu. Bastou para o “meme”. E para virem os guardiões da honra e do teclado em sua defesa. 

Como se cinco gerações de Ribeiro Telles, de herdade, de traje e de ofício, pudessem ser desfeitas por um reel de quinze segundos.

Com tanto problema sério actual, e o problema é isto, a sério?

Essa energia, defender o que não precisa de defesa, é o pior gasto da tauromaquia portuguesa. O Telles Bastos não precisa de gabinete de crise. Ele sabe distinguir o importante do resto.

A festa precisa de ídolos. Precisa de pertença. Precisa de alguém que transmita os valores certos, não o manual de sobrevivência das redes. Os toureiros corajosos ainda existem, os que entram porque sentem o peso do albero, o silêncio ante o toiro, a obrigação de não falhar às gentes que vieram de longe para os ver. Sem ídolos, as praças tornam-se em recintos estéreis, sem alma. Sem pertença, o público é apenas assistência. Sem quem transmita a arte com o corpo e não só com o discurso, fica a pose.

Nos cavaleiros nota-se logo. Há os que toureiam porque sentem, o cavalo, o terreno, o animal que pede sítio, a tarde que não se repete. E há os que toureiam porque é a única coisa que sabem fazer. Vê-se no pulso. Vê-se na pressa. Vê-se quando o traje é farda e não forma. Os primeiros deixam a praça mais alta do que a encontraram. Os segundos cumprem o cartel e vão-se embora. A diferença não se explica em comunicado. Sente-se, como se sente um toiro que pára ou um que só passa.

Enquanto se gasta saliva com quem nunca pôs o pé numa dehesa ou numa praça, deixa-se por fazer o trabalho que importa, ganadarias com mais rigor, cartéis com mais critério, praças que não se contentem em sobreviver, jovens que entrem pelo ritual e não pelo escândalo. Melhorar a tauromaquia em Portugal não é convencer o inimigo profissional. Esses, nem vale a pena perder tempo com eles. É tornar a festa mais exigente, mais bela, mais povo.

Porque isto ainda é um dos últimos redutos de valores que se foram perdendo e aos quais muita gente quer voltar, aos pueblos, a vestir com mais estilo e menos nudez obrigatória. Na conversa que corre sobre os jovens e a ideologia há um reconhecimento incómodo. Antes existiam ideais, rebeldia, mas havia suporte cultural, Dylan, os Sex Pistols, Warhol, Dali, Sabina. Havia atrito, havia discussão, havia estilo. A rebeldia vinha com forma, com ideais. Hoje o novo desafio da juventude sem ídolos e com tanta globalização, que corre o risco de ser só retrocesso, sem o objectivo de manter cultura, é voltar a ter ídolos, a quem admirar e a quem aspirar a ser. E quem melhor que um toureiro que arrisca a vida diante de um animal de mais de 500kgs? O resto são tretas!

E basta ver a quantidade de juventude que anda atrás dos “seus” toureiros, tudo aponta para o mesmo sítio. As pessoas estão fartas do vulgar como único discurso. Querem cerimónia. Querem alguém a quem se possa pertencer. A vontade de que o corpo tenha contorno e a vida, rito.


O traje corto não é fantasia. O traje de luces não é só bonito. O chapéu ou a montera não são só adereços. A maneira de chegar à barra, de esperar, de não improvisar o respeito, isso é o contrário da nudez ideológica. É gramática. E a gramática, quando se perde, não volta com hashtag. Volta no campo, no cavalo, na conversa de tarde, no silêncio de quem sabe que o animal à frente não lê comunicados. 

Por isso a hipocrisia do peito certo e da fé ridícula é mais do que anedota de Setembro. É o mapa. O corpo, a crença, e o saber estar só são alvo fácil quando ainda têm hierarquia, risco e tradição. O cavaleiro que se esvazia na arena não precisa que o defendam dos “memes”. Precisa que o espectáculo taurino em que se insere, deixe de gastar pólvora com quem não entra na arena. A tauromaquia portuguesa não se salva a explicar-se a quem a odeia por desporto. Salva-se a ser melhor, mais ídolo, mais pertença, mais gente que toureia porque sente, e menos gente que toureia só porque não sabe fazer outra coisa. O resto é ruído. 

E ruído, como o toiro que não pára, só merece quem ainda não aprendeu a citar de frente.


Dra. ESTER TERENO




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