Uma corrida de toiros de gala à antiga portuguesa é um espetáculo tauromáquico especial que une a lide equestre tradicional a um faustoso cortejo histórico evocativo das touradas reais do século XVIII.

O Cortejo histórico inicial : antes do início da lide dos toiros, a praça exibe decorações especiais e recebe um desfile solene que recria a atmosfera cortesã de antanho. Este desfile segue uma ordem rigorosa de entrada e saída...

O Neto : a figura central e representante da autoridade na praça (vestido à época do século XVII/XVIII), que abre o cortejo e dá as ordens para o início do espetáculo.
Pajens e Porta-Estandartes : grupos de pajens acompanham o Neto e os cavaleiros, enquanto os porta-estandartes exibem os emblemas das várias casas nobres representadas.

Músicos tradicionais : charameleiros (tocadores de charamela, um instrumento de sopro antigo) e um timbaleiro anunciam a chegada do cortejo com música histórica.

Os Coches : coches reais ou senhoriais transportam os cavaleiros tauromáquicos e respetivas equipagens, conduzidos por cocheiros e sotas.

Cavaleiros Tauromáquicos : efetuam as cortesias vestidos a rigor com casacas do século XVIII (traje à D. João ou à àurea).

Os Forcados : participam no cortejo a pé ou integrados na cerimónia, ficando encarregues da tradicional pega de caras ou de cernelha.

Mula das Farpas: é também integrada no desfile, conduzida por moços de praça para o auxílio durante as sortes.

O Significado Cultural : tudo isto funciona como uma recriação viva da história equestre nacional portuguesa e das antigas cortes de gala.Mantém vivas antigas normas de etiqueta, vestidos tradicionais e o protocolo das festas reais portuguesas.

Aqui tem agora os detalhes sobre esses dois elementos fundamentais do cortejo, que preservam o protocolo e a estética do século XVIII :

O papel exacto do Neto : o Neto é a figura que abre o cortejo e representa a autoridade máxima da praça (antigamente, o Rei ou o Diretor da Corrida). 
As suas funções principais são as seguintes... 
Pedir a chave : cavalgando sozinho no início, o Neto dirige-se à tribuna presidencial para saudar a autoridade e pedir a chave simbólica da praça para dar início ao espetáculo.
Comandar o cortejo : Após receber a autoridade, faz o sinal para a entrada de todo o desfile histórico (coches, pajens, músicos).
Transmitir ordens : Tradicionalmente, era o responsável por transmitir as ordens da presidência aos cavaleiros e moços de estribeira.
Correr a praça : executa um galope tenso e elegante ao redor da arena, demonstrando alta perícia equestre logo na abertura.

Os trajes dos cavaleiros : os cavaleiros tauromáquicos vestem o chamado Traje de Gala à Frederica (ou à D. João V), que recria a moda da corte setecentista, de tal forma que temos ...
Casaca : feita de veludo ou seda pesada, ricamente bordada a fio de ouro ou prata, com botões trabalhados.
Colete : curto, de seda ou cetim brocado, também ornamentado com bordados finos.
Calções : da mesma cor e tecido da casaca, ajustados até ao joelho.
Tricórnio : chapéu de feltro preto com três bicos, debruado a ouro ou prata e decorado com plumas de avestruz.
Camisa : branca, de seda ou linho fino, com folhos (rendas) nos punhos e no peito (o gorguerão).
Botas : altas, de couro preto ou camurça, que sobem acima do joelho, acompanhadas por esporas douradas ou prateadas.

Detalhes da indumentária dos pajens e como os músicos (charameleiros) influenciam o ritmo do espetáculo : estes dois grupos completam a atmosfera barroca da corrida de gala, garantindo que o espetáculo seja tanto visual como auditivo.

Detalhes da indumentária dos pajens : os pajens acompanham os cavaleiros e os coches, vestindo trajes que replicam a farda da criadagem nobre do século XVIII...
Casaca Curta ou Justilho : feitos de feltro ou veludo, geralmente nas cores heráldicas da casa do cavaleiro que acompanham.
Calções até ao Joelho: da mesma cor da casaca, combinados com meias altas brancas ou de seda clara.
Gola e Punhos : camisas de linho com folhos de renda discretos no peito e nos punhos, menos vistosos que os dos cavaleiros.
Tricórnio simples : chapéu de três bicos em feltro preto, mas sem as plumas de avestruz exuberantes dos cavaleiros.
Sapatos de fivela : Calçado de couro preto com uma grande fivela metálica (dourada ou prateada) na frente.

O impacto dos músicos (charameleiros) no ritmo : os charameleiros e o timbaleiro não são apenas decorativos; eles ditam o andamento de toda a cerimónia inicial...
Anúncio de Protocolo : o toque das charamelas (instrumentos de sopro antigos) e dos timbales avisa o público e os participantes de que cada fase do cortejo vai começar.
Ritmo do passo : a música tem um compasso imperial e cadenciado, que serve para regular o passo dos cavalos que puxam os coches e o andar solene dos pajens.
Criação de tensão : o rufar dos timbales aumenta a expectativa do público durante o percurso do Neto até à tribuna presidencial.
Transição de ambientes : o som arcaico destes instrumentos transporta imediatamente o público para o ambiente do século XVIII, cessando assim que a lide propriamente dita começa, dando lugar à banda filarmónica tradicional.

Cómo funciona o maneio dos coches na arena e cómo os forcados se integram neste ambiente histórico...
Estes dois elementos ligam a grandiosidade mecânica dos transportes de época à valentia humana dos moços de forcado, fechando o protocolo da corrida de gala.
O maneio dos coches na arena...A condução de carruagens pesadas puxadas por vários cavalos dentro de um espaço circular exige precisão absoluta.
A parelha e a guia : os coches entram geralmente puxados por quatro cavalos (as quartas) ou seis cavalos. O manejo exige cavalos extremamente calmos e habituados ao barulho do público.
O cocheiro e os sotas : o cocheiro vai no pescante a controlar as rédeas principais. Os sotas (ajudantes) podem ir montados no cavalo da frente (guia) para direcionar a parelha nas curvas apertadas da arena.
Trajetória em oito ou oval : os coches não andam à deriva; cumprem um desenho rigoroso na arena, descrevendo voltas completas ou trajetórias em "oito" para saudar todos os setores do público.
A paragem de honra: implica imobilizar os coches em frente à tribuna presidencial com precisão milimétrica, sem sobressaltos para os cavaleiros que viajam no interior.
A saída limpa: após os cavaleiros desembarcarem para iniciar as cortesias, os coches saem da arena num passo sincronizado e rápido para desimpedir o espaço para a lide.

A Integração dos Forcados 
no Ambiente Histórico...
Os forcados representam a guarda de honra e a ligação direta às origens populares e reais da festa.
Guarda de honra de época : no cortejo, os forcados não vestem a jaqueta tradicional de ramagens da lide normal. Integram-se no desfile com o seu traje de gala histórico ou fardamento de época, marchando a pé com solenidade militar.
A evocação dos archeiros : historicamente, os forcados derivam dos antigos guardas do palácio (archeiros ou alabardeiros) que protegiam a família real nas cortes. Na gala, eles recriam essa função de proteção da praça.

Alinhamento rigoroso : formam em duas alas paralelas à passagem dos coches e dos cavaleiros, mantendo-se imóveis e em posição de sentido durante o pedido da chave pelo Neto.
A pega de gala: quando chega o momento da pega, os forcados despem os adornos históricos e executam a sorte de caras ou de cernelha com a máxima pureza técnica, dedicando a ação à presidência de forma altamente protocolar.

A saída rápida da mula das farpas (também chamada de "mula dos ferros") após a descarga da caixa decorada com as bandarilhas... é uma medida estritamente necessária por razões de segurança, protocolo e ritmo do espetáculo.
Segurança do animal e dos moços : a mula é um animal de tração ou carga e não possui o treino de alta escola, a agilidade ou a rapidez de reflexos dos cavalos dos toureiros. Se o touro entrar na arena com a mula ainda lá dentro, o risco de colhida violenta é extremo.
Prevenção de reações de pânico : as mulas são muito sensíveis a estímulos visuais e sonoros fortes. A presença do público ruidoso, a música e a iminente entrada do touro podem fazê-la entrar em pânico, gerando situações perigosas para os moços de praça que a conduzem.
Limpeza e desimpedimento da arena : o regulamento tauromáquico exige que, no momento em que o touro sai do curro (gaiola), a arena esteja completamente limpa de obstáculos, carruagens ou animais auxiliares, garantindo espaço livre para a lide equestre.
Fluidez do protocolo : nas corridas de gala, o tempo é rigidamente cronometrado. 
A descarga da caixa dos ferros é o último ato do cortejo histórico; assim que a mula sai, o Neto dá o sinal e o espetáculo de lide começa sem demoras.