Já Chêra a Fêra!
Desenganem-se se acham que consigo escrever sobre outro assunto, não me peçam o impossível!
Este mês abençoado e frenético, em que até os mais sensatos se rendem à loucura organizada da tradição.
Mas antes de tudo, esclarecemos um par de coisas? Por coisas do género, “já lá vou há 30 anos, sou quase de lá”, não. Também vou a Moura, à Moita, a Alcochete, etc. há uma vida, e adoro, e nunca serei delas, os razoáveis entenderão.
E é falar em Barrancos e ouvir “ah e tal, vocês falam portunhol”, “ah, nós também temos largadas”, “também temos grupos de sevillanas”. Sei que sim, mas... acreditem, somos diferentes, e se são diferenças colossais, sim, porque nós somos Lusos, Alentejanos, mas também Extremeños e Andaluces, que fazem de nós uma terra única! Uma coisa é gostar muito de música espanhola, da cultura, de tudo, ou até mesmo ser da imensa raia portuguesa, outra, é ser Barranquenho.
E quem não entender muito bem, é ter paciência para ler o que escrevo abaixo.
Há terras onde a fronteira não é só uma linha no mapa. É uma cicatriz viva, uma memória de séculos que ainda se ouve na boca da gente e se vê no modo como se olha para os vizinhos próximos, que são o nosso espelho. Aqui, do lado de cá, somos trilíngues, falamos Português, Espanhol e Barranquenho. Afinal, a Língua é uma forma própria de dizer o mundo, com o ritmo, a cadência e as palavras que nos chegam de mais perto do Sol de Sevilha.
Por exemplo, todos sabemos que zonas do Norte trocam os "V" pelos "B". Isto não é um erro nem um segredo, é uma herança fonética legítima partilhada por toda uma comunidade. Já a gíria ou código é intencional, criar identidade ou esconder informação. O exemplo do Calão de Alfama, não nasceu por isolamento geográfico natural da zona, mas sim porque um grupo específico (contrabandistas) precisava de um código secreto para que polícias e afins não os entendessem.
Já o Barranquenho, fascinante, surgiu por volta do século XV, fruto do contacto diário, do comércio e do casamento entre as populações locais portuguesas e os emigrantes espanhóis da Extremadura e da Andaluzia. Devido ao isolamento geográfico, esta fusão consolidou-se e tornou-se a língua de toda a comunidade Barranquenha. E é Património Municipal desde 2008 e em dezembro de 2021, tem Reconhecimento Nacional, a Assembleia da República reconhece e protege oficialmente o Barranquenho como Língua, dando-lhe direitos garantidos. É língua própria, regional e natural, mistura português arcaico e castelhano, tudo pronunciado com um marcado sotaque andaluz. Daquelas que se herdam onde se nasce e que ninguém consegue fingir durante muito tempo. Quem as vive desde pequeno sabe que nelas está guardada uma forma de estar no mundo que não se encontra noutro sítio de Portugal. Mais depressa nos entende um espanhol, que um português. Quem as ouve pela primeira vez pode sorrir ou estranhar. Quem fica, ou se apaixona ou parte. Não há meio-termo conveniente.
O mesmo acontece com as tradições. Temos tradições, únicas em Portugal, que absorvemos e misturámos, da vizinhança durante séculos.
Por falar nelas, vê-se a palavra tradição ser usada e abusada, ficando desprovida do seu autêntico sentido, fico doente! Vamos lá ver, a diferença principal entre tradição e costume está na sua origem, duração e no valor social que carregam.
A tradição é algo formal e passado entre gerações, enquanto o costume é um hábito prático do dia a dia.
Aplicação prática, até podem ter o hábito ou o costume de ir comer um gelado ao Santini, ou ir de férias para o Algarve, mas não é uma tradição. Tradição são as nossas touradas seculares com touros de morte. Até aqui, tudo bem?
Portanto, somos o resultado de séculos de fusão, não é nada recente, não estamos muito “flamenquitos” agora. Sevillanas, fandangos de Huelva, Pasodobles, Villancicos etc., também fazem parte do nosso cancioneiro tradicional e transmitido entre gerações, assim como o cante verdadeiro, não o fofinho da moda, o sério e profundo do Baixo Alentejo, e en Barrancos, antes de aprender a andar, ya sabemos tocar las palmas, lo hemos mamado desde la cuna y lo llevamos en la sangre por partida doble.
E alguém se aguenta numa verbena duma festa de um pueblo qualquer, e saber as músicas e coreografias todas, do princípio ao fim? Ah pois é, crescemos com tudo isto!
E todos os dias quase, vamos ao “estrangeiro”, manter e fomentar laços e amizades de cá e de lá, como um só.
Portanto, não somos uma típica Vila Alentejana, nem um Ribatejo com campinos (por muito que goste destas regiões), nem uma terra de bois e chocas. Aqui só há touros e cabrestos. É outra coisa. É outra memória. É cultura singular!
Em Agosto, não temos largadas, temos encerros.
Não temos festival taurino, não temos capeia, temos corridas com touros de morte, à Barranquenha, com as sortes, com tudo o que isso acarreta de tradição, de coragem e de arte.
E como diz a Lei número 19/2002 de 31 de julho do mesmo ano, no artigo 2, número 4: “A realização de qualquer espectáculo com touros de morte é excepcionalmente autorizada no caso em que sejam de atender tradições locais que se tenham mantido de forma ininterrupta, pelo menos, nos 50 anos anteriores à entrada em vigor do presente diploma, como expressão de cultura popular, nos dias em que o evento histórico se realize.”.
Por isto, as nossas corridas de touros apenas podem ser realizadas nestas datas, 29, 30 e 31 de Agosto, e nesta obra de arte, os tabuados! Uma obra de engenharia fabulosa, que transforma e agiganta a nossa linda Praça da Liberdade numa praça de toros capaz de acolher tanta gente, o epicentro de tudo. O que se vai ver sempre mal se chega, a ilusão das crianças, abençoadas com esta loucura que os leva a querer ir sempre vê-los, onde toureiam os touros imaginários, onde se divertem como nenhumas outras! Nesta época, todas as crianças são toureiras, a inocência infantil, porque ainda compreendem de uma forma perfeita que o mais importante são a beleza e a galhardia. E é o mais importante que se pode levar pela vida fora, que a enfrentemos de capote na mão, para abrir el compás, e lidar o touro.
O touro não é um detalhe decorativo. É a alma. A coluna vertebral de uma cultura. É o que nos une. É o que faz da nossa Fêra a mais singular de todas..
A importância do touro é indiscutível, e para nós, a importância de honrar a Excepção que conquistámos é imensa! Há uma carga emocional especial nestas festas, e não só pelo trabalho que deu manter a parte taurina, mas pela união (lá está, sempre a união), e ambiente das mesmas.
E nem comento o facto de há uma meia dúzia de anos para cá, ter-se tornado "moda", os toureiros vestirem traje corto. Se isto não é um Festival, Senhores!!
Toda a vida a ver como brilhavam o ouro e a prata dos seus trajes de luces e a magia destes fatos de super-heróis, obras de arte debaixo do céu mais bonito do mundo, o Barranquenho.. Não entendo.
E com tudo isto, não quero dizer que somos melhores, somos apenas diferentes.
Por tudo isto, agradeço tanto à minha querida terra tudo o que nos dá, os amigos, o legado, as emoções, por tomar conta dos seus, adoptar os que chegam, “uh de fóra”, que são tão bem-vindos e são considerados como mais um dos nossos.
Todos os que entendem e vivem esta festa como deve ser, cumprem os rituais, e não vêm apenas para beber copos, copos há em muita terras! Como diz a sábia Senhora minha Mãe, se é só para virem beber copos, não venham.
Por tudo isto, magoa quando tentam fazer das nossas, festas iguais às outras. Quando alguém chega com o mesmo ritmo que tem numa estância balnear, com a ideia de que o importante é beber e dançar o que se dança em qualquer lado. É fácil. E é precisamente isso que empobrece. Não queremos uma festa gira, mas cuja alma já foi passear.
Há que respeitar as tradições, a nossa cultura ancestral, e todos os que lutaram tanto por isto, e não foram poucos, toda a população e mais uns quantos bons amigos. Portanto, vir cá só pelo pitoresco da coisa, sem respeitar toros de morte, rotinas, etc., é só parvo.
E todos sabem distingui-los, os que aparecem pela hora de jantar, "fresquinhos", e que só aproveitam a noite, os bares. Mais perdem, e nunca vão entender a essência de tudo.
Há quem diga, com ar moderno e sorriso de inteligência artificial, que as tradições têm de evoluir. Claro que têm. Mas evoluir não é trocar a casa toda por mobília do Ikea só porque “está na moda”. Evoluir é saber o que se pode mudar sem perder o essencial. E o essencial, neste caso, é a consciência de que não somos iguais ao resto de Portugal. Nem queremos ser. A nossa história de fronteira, a nossa fala quase andaluza, a nossa relação com o touro, tudo isso formou uma identidade própria que não cabe nos moldes convencionais.
Porque no fundo a questão não são só as festas. É uma questão de sobrevivência cultural. Num mundo que tantas vezes prefere a globalidade à diferença, manter o que nos torna distintos é um acto de resistência. E as festas são o lugar onde essa resistência se torna visível, e onde se celebra. Que se celebre, então. Que se oiça a nossa língua. Que se sinta o touro como só aqui se sente. Que a diferença não seja um enfeite de cartaz, mas a razão pela qual a festa existe. Quando as festas respeitam essa identidade, elas tornam-se verdadeiras. A carga emocional destas festas, vem da certeza de que se está a continuar algo que vem de longe e que ainda faz sentido. E a diferença, é a nossa riqueza! E esta diferença é casa. E a casa, quando se respeita, ainda sabe receber quem chega… E se temos tantos amigos que já adoptámos! Porquê? Porque desde que chegaram não tentaram mudar absolutamente nada.
Tentar transformar a Fêra num arraial como tantos outros, é asneira certa. A nossa Fêra é única!
Mas estamos em plena “Pré-Fêra”. Nestes dias andamos numa azáfama para deixar tudo pronto, quem vem, aquele familiar que só vemos nesta altura, preparar as casas, porque depois, bom... depois não há tempo nem para pensar. É confirmar listas de convidados com mais nervo do que se fosse para uma gala dos Óscares. A agitação nas casas por onde passa o toro no encerro, com todos a colocarem os ferros de protecção nas suas portas e janelas.
A correria para comprar os lugares no tabuado, mal se colocam à venda. O arranjar lugar debaixo dos tabuados, de preferência nas primeiras filas e rezar para que os que sobem aos paus, não tapem muito as vistas.
E chegará o dia 28, sai a procissão em honra de Nossa Senhora da Conceição, e a partir daí começa o frenesim e nada será como antes.
A festa que nos relembra que estamos vivos – e bem vivos! Uma celebração de rituais, de reencontros, de uma alegria quase insolente. Não há espaço para o politicamente correcto, para as mariquices do “ai que calor”, “ai que barulho” ou “ai que estou cansado”. Aqui só há espaço para “quando bieste?”, “quando te bais?”, “y tu de quem éreh?”, “adêuh bunita!”, “bâmuh au baile?” Esta particular alegria de viver, tão de nuestros hermanos, que lida com a consciência de estar vivo pelo milagre de estar cá, e de não estar em mais lado nenhum, senão aqui.
E daremos abraços e relembraremos histórias de sempre e seremos felizes assim estes dias. Se calhar estar vivo, seja isto mesmo, fazer o mesmo a cada 28 de Agosto como uma condenação bendita, feliz, bem-disposta e sortuda, sinal que estamos vivos e juntos mais um ano. É o tomar o pulso de uma comunidade que se une e que lhe corre nas veias algo diferente.
Vivemos numa “bolha”, a dose de vitamina anual ideal. Os que entendem todos os rituais.
A açorda depois do encerro.
E sim, há açorda de manhã, antes do encerro, na Sociedade Recreativa Artística Barranquense (Sociedade dos Rapazes), um edifício situado na praça, e que durante as corridas, só lá deixa ficar dentro com vistas privilegiadas, os seus sócios.
Diz que é uma açorda alentejana que não alimenta só o estômago, mas a alma.
A esta, vai-se a direito dos bailes espectaculares de toda a vida, com orquestras espanholas, que tocam as "nossas" músicas, que sempre cantámos, que sabemos todas as coreografias, que sempre vimos os nossos pais dançarem. Desafiam o corpo e as convenções. Aqui, até quem vem de muletas, dança até ao nascer do sol. E à pergunta, se o jantar vai ser novamente carne de touro com tomate? Claro!
É o passar na rua e atirar um "ainda não fui à cama", e todos compreendemos o cansaço do outro, as poucas horas de sono, as dores nas pernas, até as ressacas.
A 29 de Agosto, o frenesim na praça antes de entrar a banda, o cheiro da areia, os banhos aos que ficam na arena, que os bombeiros regam antes da corrida. Já estamos todos “arrumados” nos tabuados como manda a lei não-escrita. Dois toros a 29 e 30, dia 31 um toro e uma vaca para brincar, dia 1, vacas para os mais atrevidos brincarem, aproveitar a nossa praça até ao fim, antes do desgosto de a começarem a desmontar.
Este ano, temos o privilégio de ter figuras como David Galán, Alvaro Lorenzo, Jesus Enrique Colombo e Javier Zulueta. Uma praça rectangular, perigosa, mas feita de amor. E podem até não ser as melhores corridas – mas são as nossas. E isso basta. E na verdade, quem vem tourear, é o último dos detalhes que importam, pois vamos a todas! E há quem se queixe, de não haver nenhum português este ano, amigos, que me lembre, já cá vieram tourear todos os Portugueses. Dar palpites sobre as terras dos outros, é uma coisa que me fascina, nunca fiz, mas deve ser especial, sei lá!
E por fim, a apresentação da nova Comissão de Festas em pleno paseíllo com os toureiros, é começar a perguntar “que toreros trarão para o ano?”, etc.. Tudo gira em torno do toro, da praça!
Já chêra a Fêra, e como! É um aroma muito particular, uma mistura da madeira dos tabuados, areia na praça e carne de toro com tomate. Uma delícia.
Barrancos, meus senhores, não é só uma terra com um nome bonito. É o epicentro de uma tradição que nos corre no sangue. E sim, somos distintos.
E se tudo isto não é magia e afición, não sei o que será!
Ou melhor, sei e sabemos muitos, é Orgulho de ser Barranquenho.
ESTER TERENO)

