A luta do povo de Barrancos pela legalidade dos seus «touros de morte» é um dos episódios de resistência cultural e desobediência civil mais marcantes da história contemporânea de Portugal.
Durante décadas e décadas, a população desta vila alentejana raiana defendeu contra vento e mareia a legitimidade das suas festas tradicionais face à proibição legal em vigor no país.
O contexto de proibição
e a tradição local
A lei nacional : os touros de morte foram oficialmente proibidos em Portugal no ano de 1928.
A especificidade de Barrancos : Apesar da proibição, a vila continuou ininterruptamente a realizar a morte do touro na arena durante as Festas em Honra de Nossa Senhora da Conceição, celebradas anualmente no final do mês de agosto (dias 28 a 31).
A influência cultural : tal vez, quem sabe, devido à proximidade geográfica e cultural com Espanha, a lide em Barrancos segue o modelo espanhol, onde o animal é sacrificado no final da faena por um matador.
O esforço e a resistência do Povo (anos 90 e primeiros anos 2000 especialmente)
A tensão atingiu o seu pico no final da década de 1990 e início de 2000, transformando o caso num debate nacional português de soberania cultural contra a lei do Estado.
A desobediência civil : populares, autarcas e organizadores organizavam as corridas sabendo que enfrentariam multas e processos judiciais.
O confronto com as autoridades : forças especiais da Guarda Nacional Republicana (GNR) eram frequentemente enviadas para a vila. O povo formava barreiras humanas para proteger os matadores e garantir que a tradição se cumpria.
União comunitária: havia uma cumplicidade total entre a população e uma solidariedade absoluta, digna de ser considerada épica, admirável pelo que era e vinha representando...
Ninguém denunciava os intervenientes directos e as multas eram assumidas coletivamente ou geravam forte contestação política.
A conquista do
regime de exceção
O forte e admirável braço de ferro e o reconhecimento de que a proibição era ineficaz contra a fortíssima identidade daquelas gentes, daquela população... forçaram o poder político a ceder, não tinham alternativa...
A aprovação da lei : em julho de 2002, a Assembleia da República aprovou a Lei n.º 19/2002, de 31 de Julho.
O critério legal : o diploma alterou a lei de proteção aos animais para introduzir um regime de exceção. Este regime permite espetáculos com touros de morte em locais onde se verifiquem tradições locais ininterruptas pelo menos nos 50 anos anteriores.
Autorização definitiva : Barrancos cumpre perfeitamente este requisito histórico. A autorização passou a depender exclusivamente da Inspeção-Geral das Atividades Culturais (IGAC), regularizando o evento para sempre, desde que mantida a tradição.
Um artigo do Dr. António Tereno
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25 de Agosto de 2026 : hoje recordamos com saudade aqueles anos de luta e aquela jornada plena de exaltação em defesa da Tradição Cultural de Barrancos, em pleno período festivo que já se vivia na nossa terra.
Naquela noite quente de 25 de Agosto de 1999, todos os caminhos foram dar ao então Centro Cultural de Barrancos, com a sala a abarrotar, ficando muita gente fora do edifício a ouvir com redobrado interesse tudo o que se passava naquele Colóquio em defesa da nossa Identidade Cultural, organizado pela Câmara Municipal e que serviu para nos unir num tempo de crise que então vivíamos, face aos ataques das organizações anti-taurinas e á ambiguidade governamental no tratamento da situação.
Presentes na mesa do colóquio além do Presidente da Câmara (eu próprio), o Presidente da Assembleia Municipal Dr. Eduardo Carvalho e os conferencistas Dr. Nuno Corujeira; Dr .Luis Capucha; Dr. António Elói; o veterinário Dr. Domingos Xavier e o Alcalde de Aroche Antonio Cuaresma, além de outras personalidades presentes com destaque para os deputados do Baixo Alentejo, António Rodeia Machado, José Raul dos Santos e António Saleiro, o nosso amigo coronel Adelino de Matos Coelho e muitos outros.
Foi bonito ver o entusiasmo com que se ouviu cada intervenção, os aplausos que ecoavam no salão, a participação de todos com destaque para o jornalista galego Eugénio Eiroa, e o bandarilheiro João Vilaverde a oferecer-se para matar os toiros caso os matadores não aparecessem.
Aquela noite e aquele acontecimento, deram-nos a certeza que tinhamos ganho uma batalha duma guerra que iria ser mais longa, mas que acabaríamos por vencer com o apoio de muitos amigos e a união de todos os Barranquenhos!
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Un texto del Dr. António Tereno, inolvidable presidente
que fue de la Câmara Municipal de Barrancos
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