Menos ideologia, mais Tauromaquia!

Há uma frase que ouvi num documentário sobre veteranos do Vietname e que me ficou como uma espinha irritante na garganta: “Eu fui ateu até entrar em combate”. O ateísmo, explicou o homem, com a calma de quem já viu o inferno de perto, requer um mínimo de conforto vital — um sofá macio, Netflix sem interrupções, talvez um matcha-latte-orgânico-não-sei-mais-o-quê, ou seja, uma vida sem risco iminente. Nem a guerra nem a tauromaquia oferecem esse luxo. O toureiro, como o soldado, coloca a morte à sua frente, na arena, e finge que ela não existe, e ainda arrisca um quite por cima do ombro. Mas o miúdo que assiste a uma corrida, entende logo o conceito do “definitivo”. Não há filtros de Instagram que disfarce um “pitonazo”, nem a possibilidade de mais vidas como se de um videojogo se tratasse, nem muito menos, promessas de “levanta-te sempre, sonha e conseguirás”. Isso é um embuste autêntico.

Hoje, quando o Ministério da Juventude e Infância de Espanha, chefiado pela “simpática” Sira Rego, cujo nome parece saído de um catálogo de especiarias finas, defende proibir a entrada de menores nas praças, não consigo evitar um sorriso irónico, porque vejo a mesma hipocrisia que o veterano denunciava... Violência, dizem eles. Fomenta agressividade. Pois claro. Mas por que não proíbem as horas infinitas em frente a ecrãs, onde crianças jogam online com desconhecidos, sofrem bullying cibernético, são expostos a conteúdos que os destroem por dentro? Sim sim, nada é mais pacificador do que deixar uma criança de 12 anos passar oito horas seguidas a gritar insultos num chat do jogo Fortnite tão na moda, com um russo de 40 anos que se faz chamar “x-predadornegro-123”. Pronto, vamos assumir que é um inglês, para não arranjar problemas à nação. Sim senhora, educação emocional de topo!

E agora, alguns chamar-me-ão racista, xenófoba, o que seja, e sabem que mais? Dá-me absolutamente igual, porque não sou, nem uma coisa, nem outra. E vão chamar-me porquê? Porque vou deixar aqui um exemplo bem claro do que é uma pessoa que não entende nada da cultura de um país, ter voz nas decisões. Penso que todos conhecem aquele actor negro (já nem sei bem como chamar à cor da pele, bom, aquele bem mais escuro que eu por exemplo), Denzel Washington? Um “actorzaço”, sou muito fã!! Ora bem, vi uma entrevista (que a tenho guardada, caso tenham dúvidas), em que ele justificava a escolha de um director negro para um filme:

- “Então por que precisa de um director negro, não poderia um director branco ter produzido este trabalho?

- Não é cor, é cultura. Explico a diferença, porque acho que estamos a confundir as coisas, Steven Spielberg fez Schindler's List. Martin Scorsese fez Goodfellas. Steven Spielberg poderia ter dirigido Goodfellas. Martin Scorsese provavelmente poderia ter feito um bom trabalho com Schindler's List. Mas são diferenças culturais. Eu sei, nós, os negros, sabemos o que é quando um ferro quente passa no cabelo para o alisar, e ao que cheira.
E isto é uma diferença cultural, não é apenas uma diferença de cor. Então é cultura.”

Viram? O princípio é o mesmo, e não é preciso ser muito inteligente para perceber, as diferenças culturais, existem, não podem ser censuradas por quem não entende nada delas, no conforto de um gabinete de cidade, ou por se ser palestina ainda que nascida em Espanha, como é o caso da senhora Sira Rego. É impossível perceberem!

E se não acham isto importante, tudo o que vem de Espanha é, podemos andar um pouco atrás, mas chegamos lá sempre. Afecta-nos sempre, basta tomar como exemplo os rios, as barragens nesta altura tão crítica. Já agora, muita força a todos os afectados por estas calamidades!

Dizem que ver violência fomenta agressividade. Como alguém que já foi criança numa família taurina e sobreviveu a tardes de touros sem traumas irreversíveis, penso que todos preferem explicar aos mais novos, porque o matador se ajoelha diante do touro antes de o matar por exemplo, do que os deixar sozinhos no quarto a ver TikToks intermináveis, onde influencers choram porque o café estava demasiado quente. Prefiro mil vezes uma tarde na praça, a partilhar o ritual, a tradição, o respeito pelo animal e pelo homem que arrisca a vida. Aqui, a suposta violência é ritualizada, controlada, simbólica. Impede guerras reais, canaliza o instinto. É margem para a vida.

Nas redes há likes, há cyberbullying e há um algoritmo que decide se o seu filho vai crescer a pensar que a vida é um eterno “tudo bem, manifesta da forma correcta o teu desejo e o universo entrega-te”.

A tauromaquia educa na dureza da existência. Ensina que a morte não é, “o avô está a dormir profundamente”, que a doença existe e não se cura com cristais ou boas intenções, que nem tudo se arranja com positividade tóxica ou com um “podes ser quem quiseres”, até podem, mas existem sempre limites. O miúdo que vê o toureiro enfrentar o touro e aprende a arriscar na vida e aprende que há coisas que valem a pena, coragem, arte, tradição, sacrifício, coragem, orgulho. Mais, este mundo sim, gera sonhadores: toureiros, bandarilheiros, professores. Sem isso, perdemos essência. Se não ensinamos desde pequenos, de maiores, dificilmente terão afición e ficamos com uma geração de sonhadores de stories, daqueles que acham que o maior risco da vida é escolher filtro errado. E uma geração sem raízes é substituída por quem não duvida do seu direito a existir.

Gad Saad, um exímio psicólogo evolucionista, explica-o com a elegância de quem não tem paciência para tretas, a empatia evoluiu por razões claras, proteger a prole, cooperar, ou seja, evoluiu para nos ajudar a sobreviver. Mas quando falha, torna-se hiperactiva, prioriza o errado, torna-se suicida. Vemos isso na sociedade que equipara a vida de um gato à de uma avó. Compra salmão do Alasca para o gato, enquanto a avó espera há seis meses por uma visita no lar. Ou que salva o caniche num incêndio antes de um desconhecido, quanto mais de um toureiro, que provavelmente empurrariam para as chamas para salvar o cãozinho influencer.

A culpa por ter tradição, por ser “de cá”, acelera o tal “reemplazo demográfico”. E se já achei que era uma teoria “conspiracionista”, agora começo a ter dúvidas, Aqui ao lado legalizam-se aos meio milhões que rapidamente se espalharão por toda a Europa. Se tenho alguma coisa contra emigrantes? Depende apenas se vêm com vontade de se adaptar, e respeitar o que é nosso.

A sobrevivência começa onde a culpa termina. Sinta-se orgulhoso. Ou pelo menos não peça desculpa por existir.

O problema dos outros, não é a tauromaquia, é não conseguir entendê-la e por isso incomoda tanto. Pobres almas ditadoras.

A nossa civilização, e umas quantas outras, construiu-se em cima da morte que dá vida aos deuses. Franco Battiato compôs uma música que dizia: "Nessun uomo mortale ha sollevato il mio velo", que nenhum homem conseguiu levantar o meu véu. A tauromaquia levanta-o um bocadinho, mostra o limite e diz: “Aqui está a realidade, miúdo. Enfrenta-a com classe”. Ensina que a personalidade não é um transtorno a diagnosticar: ser tímido não é um transtorno, esquecido não é TDAH. Somos herdeiros de ancestrais, de gente que arriscou, não meros produtos com rótulos terapêuticos. Perdemos mistério, romance, alma!

Não levem as crianças aos touros, dizem. Digam-lhes que a vida vale o mesmo que a de um gato, que a tradição é violência. Mas a verdadeira violência está na negação da realidade, na empatia que nos mata por dentro, enquanto sorrimos e fazemos uma pose para o telemóvel, mesmo com a alma vazia. A tauromaquia, devidamente ensinada, forma homens e mulheres, gente que enfrenta o touro, e a vida, de frente.

Sem ilusões, sem filtros. Com orgulho e muita verdade. E isso, sim, é educação.

DRA. ESTER TERENO