De Dax a Barrancos - 950km não são nada!. // Je peux pas, j’ai féria! (não posso, tenho feria)

Texto de Dra. Ester TERENO - Fotos de la familia Tereno

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RECORDANDO ASUNTOS DEL VERANO ANTERIOR...

De Dax a Barrancos - 950km não são nada!

Je peux pas, j’ai féria! (não posso, tenho feria)

Há lá coisa melhor que ver pessoas felizes? Pessoas felizes são melhores pessoas, o mundo fica um lugar mais bonito. Só muito tarde na vida, e ainda bem, descobri que muita gente não valoriza a alegria, que a desconsideram, que acham até que vem na proporção inversa da inteligência. Como se a seriedade fosse aval de elevado QI. E já nem falo de humor, quando é um dos melhores sinais de inteligência! Alguns acham que devemos pôr de lado a alegria por conta das obrigações e idade. Nada mais errado! E nada mais apropriado que esta frase que vi por Dax “Je peux pas, j’ai féria”, colocar a diversão acima de quase tudo por altura das festas, é de grande valor! É que apesar do meu vasto conhecimento (Doutor Honoris Causa) em festas e boa vida, não o tenho em Medicina nem em Psicologia, para falar dos benefícios para a saúde, mas lá que os tem, tem! E não falo daquela alegria fingida das redes sociais, somos muito felizes, muito malucos, não, a verdadeira, a que se sente, que se vibra em comunidade! 

E na comunidade, é onde estão os afectos, o nosso crescimento como seres humanos, já que não somos nada sozinhos. Um grupo é um agregador de memórias e civilização. Já vos darei bons exemplos de tudo!

Pois que nem tudo o que é novo é necessariamente um avanço social. E é fácil ver o recuo em tantos recantos. E não tem assim tanta graça o mundo inteiro ficar igualzinho, construir cidades iguais umas às outras, a vestir igual, qual linha de montagem. Agora que estamos todos ligados por redes, mas nivelaram o discurso por baixo, para chegar a todos, estamos a perder a autenticidade a uma velocidade galopante. Agora “pertença é ir aos festivais, onde a maioria não é fã de música sequer, quer festa e “badalação” sempre ao som das mesmas músicas, de muito pouca qualidade diga-se.

E quando se perde o autêntico, perde-se uma boa parte da piada.

Por falar em autêntico, de todas as sortes que tenho e vou tendo na vida, uma das últimas, foi ter ido às festas de Dax, na melhor das companhias. E ter sido ensinada desde cedo, a ver e absorver culturas diferentes, só assim podemos olhar e criticar o nosso umbigo. Escassos 950km separam a minha terra, desta, e tão parecidas em algumas coisas. Deixando de parte todos os problemas que sabemos existirem em França, existem zonas que ainda são “ilhas” de tradição, cultura e tauromaquia pura, como Dax, Béziers, etc. E fui porque já respeitava muito a tauromaquia francesa, agora então, nem sei bem que diga. Capaz de largar uma lágrima ao ver os programas intermináveis, actividades de manhã à noite, superorganizados, inteligentes, frescos, saudáveis, emocionantes e profundamente franceses... 

Corridas com um ambiente avassalador, mais, espetáculos variados na praça, todos em redor do touro e na defesa das suas tradições! E todos participam, não apenas como meros espectadores, participam, envolvem-se!

Respeitam-se a si próprios, nunca vi uma má cara com horas a fio a servir, não vi em lado nenhum huevos rotos, nem pimientos padrón, mas sim a sua gastronomia. Nem uma única sevillana! Imagine-se, se por cá temos o país inteiro carregado de restaurantes “expertos” em tapas de nuestros hermanos, e na sua música... Enfim, aprendamos alguma coisa! 

Crianças felizes, a aprenderem as suas tradições, a importância dos rituais, sem mariquices de barulho (altíssimo a qualquer hora do dia), do calor, de se sujarem, de verem gente a beber muitos copos, blá blá blá, cadeiras de rodas, muletas, mobilidades reduzidas, todos, mas TODOS lá estavam, sem “mi-mi-mis” de complicações! Grupos de amigos de todas as idades, sem aquela treta do “já não temos idade para isso”. E todos, todos, muito bem-educados, de sorriso fácil, quando cá se temos alguns mais novinhos a serem “brutos”, ah é da idade, ou já bebeu, não meus senhores, é a educação!

Sabem aquela sensação de que a festa acaba de explodir e a onda de choque “abana” as normas, e que não é algo que tenha a ver com o número de pessoas nem com a quantidade litros de álcool per capita, mas com um pacto com a alegria de ser e sentir-se humano. E não se vê aquela ânsia de sobressair, todos conhecemos alguns que querem sempre brilhar, o eu fiz, eu estou, eu sou! Aqui brilham todos, são todos iguais, aqui brilhámos todos!

O uniforme “pamplónico” dá uma ajudinha: roupas brancas, lenço e faixa vermelhos, borram as diferenças do traje habitual, porque de alguma forma todos querem ser iguais, divertidos, sorridentes, parte dessa massa barulhenta em que dançam sem se conhecer, vibram sem se conhecer. Ninguém sabe se são pobres, ricos, o carinho uns pelos outros pelo simples e ainda mágico facto de terem coincidido no espaço e no tempo nestas festas, apenas humanos felizes por estar no meio de uma das melhores festas do mundo, um antídoto para os problemas.

Sabem aquela “energia” das multidões? Aquela “coisa” contagiante e vibrante? Não, não é apenas isso, é a alegria das festas em torno do touro, sempre o touro! Até tenho amigos “não-taurinos”, racionais e ponderados claro, que reconhecem que as festas mais giras, com ambiente mais saudável, são as dos touros! Não é preciso dizer muito mais. 

Mas como a Dax já não vão a tempo de ir este ano, ainda têm a festa mais importante, a minha! Vocês dirão o mesmo das vossas, logicamente. Mas que seria, se a esta altura não falasse da minha terra, se sou tão vaidosa dela? E como dizem os franceses “Je peux pas, j’ai féria”, por estes dias, a nós, Barranquenhos, acontece-nos o mesmo, não podemos grande coisa, porque temos a fêra, e poucas coisas são mais sagradas! E todo este respeito, admiração e orgulho, não o teria se não me tivesse sido incutido desde muito cedo pelos meus heróis, os senhores meus Super- Pais! A importância das tradições, dos valores e da diversão!

O evento aglutinador, o frenesim, a felicidade, o cansaço, o cheiro, o barulho, os reencontros, as rotinas. O saber que nos encontramos todos por lá, lembrando sempre os que já não estão, a dose de vitamina anual, com muita animação, ambiente singular, uma das mais tradicionais e típicas festas do País.

Com início a 28 de Agosto, com o dia religioso, a sua procissão solene, a festa explode e a rotina, a tristeza e a desesperança partem-se em mil pedaços, e nada será como antes.

Há uma carga emocional especial nestas festas, e não só pelo trabalho que deu manter a parte taurina, mas pela união (lá está, sempre a união), ambiente e especificidade das mesmas. Sim, aqui tivemos vários anos os RAYA, antes Raya Real, e há muitos muitos anos, a sua primeira actuação em Portugal. E quem diz os Raya, diz tantos outros de moda agora por terras Lusas. Sim, porque nós somos Lusos, Alentejanos, mas também Extremeños e Andaluces, e quem não sabe porquê, pode sempre perguntar ao Dr. Google sobre o assunto.

Com espetáculos na Praça á noite, bailes míticos no Quintalão até ao nascer do Sol, a culminar com uma açorda numa das Sociedades enquanto se espera pelo encerro dos touros pelas 8h00 da manhã.  Às 18h00 entra a banda na praça, depois dos banhos na arena, com as pessoas devidamente “arrumadas” nos tabuados, e aí começa o espetáculo.

Outra sorte minha, e mais, a sorte de alguns talentosos meninos que por lá passaram vingassem neste mundo. Aquela praça, uma obra de arte, rectangular e cheia de perigos, mas cheia de amor! E este ano regressa o “nosso” Nuno Casquinha! Temos também Dávila Miura, Ruben Pinar, Javier Jiménez e Lama de Góngora. Podem até não ser as melhores corridas, mas são as minhas, e existe qualquer coisa de mágico nelas. 

É preciso honrar e perpetuar a todo o custo a excepção conseguida para estes 3 dias, em que esta é a única Terra onde se podem matar os touros depois de lidados!

O touro é a coluna vertebral da vida de tantas pessoas que celebram a tauromaquia, pessoas que, sem esse elemento aglutinador, nunca se teriam cruzado sequer. Nunca poderíamos substituir esta expressão artística, estes rituais, esta irmandade de pessoas se se extinguir o touro e triunfar a moralidade pseudo- animalista. NUNCA! 

“La Tauromaquia es la clave, la actual diferencia entre el bien y el mal. Es em donde se dirime el destino del mundo, la libertad y la cultura. Renunciar a la tauromaquia es como permitir que incendien el Museo del prado com todos los cuadros dentro”. Disse e bem Andrés Calamaro, um “Deus” do rock argentino e espanhol, este sim, transgressor, e sempre muito à frente! E não são uns graffitis de mau gosto, na sinalética da Capital, que nos vão demover! A má educação nada tem a ver com a liberdade de expressão.

Ai que nervoso miudinho! A partir de dia 28 de Agosto, encontro marcado numa das terras mais típicas, salerosas e castiças do nosso País, a minha! 

E a partir desta data, seja o que for, não posso, tenho fêra!

Já chêra a Fêra!  

Paseíllo en Dax este año


La Dra. Ester Tereno, a la puerta de la plaza de Dax (Francia)

Dax 2023

De noche, en la plaza de Dax

Tauromaquia siempre presente en Dax


La Fiesta, la calle, Dax 2023

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