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TRIBUNA da TAUROMAQUIA
+ Texto : Dra. ESTER TERENO
+ Fotos : Rosalea RYAN - 
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A tirania da cultura fofinha, tira a alegria!


E vamos à crónica da abaladiça, como se diz no Alentejo, quando ainda temos (pelo menos), mais uma ou duas por beber. E não, não me vou embora, ainda que já ande a escrever há uns bons anos, e que já tenha falado de tudo e mais alguma coisa, por cá seguirei se assim o entenderem. Abaladiça por ser em jeito de despedida da temporada, mas terminá-la já é uma vitória!

Parece que com a chuva chega o aconchego do Outono, para acalmar o frenesim do Verão, etc. E podíamos aproveitar estes meses mais parados para reflectir em tudo. O que está bem e o que é preciso mudar nas decisões e posições. 

Um dos mistérios para mim insondáveis, e que me cansa, é o porquê de nos limitarmos a refilar e não a agir. Andamos quase todos direitinhos e com a bola baixa, estamos confinados a seguir apenas opiniões da internet, e quão fácil é rotular os extremos, senão vejam:

Se somos contra a imigração ilegal, somos xenófobos.

Se criticamos as pessoas que não se adaptam a viver em harmonia e civilizadamente, somos racistas.

Se temos a certeza que os “apanhados do clima” que destroem tudo, não são activistas, mas sim vândalos, somos negacionistas das alterações climáticas.

Se achamos que por mais cirurgias que possam fazer, um homem nunca será uma mulher, somos transfóbicos.

Se gostamos de corridas de touros, somos assassinos! 

Cá para mim, se não nos importamos que nos rotulem, somos é livres! E é muito isto, como se não bastassem os de “fora” deste meio, ainda temos que levar com os de “dentro”.

Chegada a altura das entregas de troféus de temporada, tudo e todos são criticados porque fazem, porque não fazem, porque este cavaleiro merecia mais que o outro, porque se gosto mais de um toureiro “menos clássico”, gosto é de circo, e porque não entregam também um troféu ao cornetim, etc. 

Mas porque a nossa opinião vale sempre mais que a dos outros? Será apenas vaidade pura, a eterna necessidade de brilhar, mas deixam-me extremamente baralhada. Em suma, tudo isto são apenas tricas, que não dão em nada, consomem e em nada ajudam a festa.

Ainda se fossem feitas por aqueles que comem coisas com sabor de carne, mas que na verdade não são carne porque dizem que é mais saudável que carne. Eles nem sequer têm ideia do que comem, quanto mais do resto!

O que não se entende é a raiva dos antis e dos eco-ansiosos, que quanto a mim, já nem os distingo. Já repararam, sempre enervados e tristes? Será a desconfiança, a raiva, o medo, ou será a pouca fé que têm na Humanidade, não sei, mas sei que perderam também a alegria.

Posto isto, é bastante evidente que o falso progressismo se tornou na religião da moda, com ênfase na vítima.  Mas o castigo social na forma de linchamento “virtual”, tão em voga ultimamente, nem se compara com o castigo por via judicial, já que o criminoso “paga” e quando “paga” não deve mais. O seu castigo não é eterno. O mesmo não acontece com as “falhas” julgadas pelo progressismo woke, a punição nunca acaba.

Pois bem, demasiadas pessoas, eu incluída, fartas deste mundo em que “cada um tem a sua verdade”, ou seja, onde ninguém tem verdades mas apenas pequenas “opiniõezinhas”, temos a solução ideal:

Têm um pensamento de treta? Querem partilhá-lo? Fácil, envie para os seus amigos do Whatsapp. Não quer? Pode então enviar o seu conselho para um sítio cujo nome não posso dizer. Pense comigo, imagine que o seu conselho vale 1000 euros. Vai querer dar 1000 euros assim aleatoriamente a pessoas da internet que não conhece? Não quer, pois não? Guarde esse dinheiro para si e junte esse dinheiro para comprar uma mão cheia de noção!

Como devem concordar, esta cultura fofinha, é movida por caprichos e desejos diversos, feitos “sob medida” para cada indivíduo. Uma sociedade que passou do racionalismo do “penso, logo existo” de Descartes para o “desejo, logo existo”, descartando a moral e a razão. É a tirania do emotivismo. “Sinto-me preso no corpo errado”, ou “sinto que sou um cão”, são frases que infelizmente se ouve cada vez mais. É a máxima de que se pode ser o que se sente. 

A sociedade tem sido moldada por um espírito superficial, preguiçoso para raciocinar e incapaz de se comprometer com qualquer coisa que vá além do que se deseja. O emotivismo apagou da nossa memória que temos que cumprir as nossas obrigações, não porque eu me sinta desta ou daquela maneira em relação a elas, mas simplesmente porque são o meu dever.

Este tipo de sociedade gera pessoas mais fracas, mais maleáveis, porque o sujeito sem tradição ou comunidade, está mais exposto do que nunca à manipulação. Uma horda de preguiçosos para raciocinar e incapazes de lutar por algo que vai além do seu umbigo.

Assim o diz Edgar Morin, “o mundo está como está, pela ausência de pensamento”.

E é por tudo isto, que apesar de tudo, os taurinos são mais felizes!

Por exemplo, para compreender a felicidade generalizada quando assistimos ao pequeno grande Tomás Bastos a conquistar o mundo, a ter todos perdidamente enamorados e esperançosos por ele! 

Aquela linha ténue entre herói e semi-Deus, a necessidade primariamente humana de encontrar um referente moral que reflita as virtudes alheias. E com isto, já sabem a quem me refiro, basta recordar que El Juli abriu a grande porta da História. Era difícil admitir que se passou um quarto de século (um quarto de século!), desde que o vimos tirar a alternativa. A eterna juventude de Juli tornou-se o melhor antídoto contra a passagem do tempo, mas a despedida de Julián López em La Maestranza representa um exercício de memória brutal. Por mais voltas que se dê, nada se compara à Maestranza, é como se nas suas paredes antigas, ecoassem as muitas vidas, os muitos espetáculos, e ali, ficou para sempre esta tarde de Juli, tivemos a sorte de lá estar, e assim voltamos a acreditar num futuro bom!

Juli não se permitiu ser criança na ambição, embora os motivos da sua glória venham da sua condição de menino-prodígio, perseverança e sacrifício. 

A alma de um toureiro só pode ser controlada por um toureiro.

A tauromaquia tem a obrigação total e absoluta de se distinguir, de se afastar desta sociedade de vidro e extremista em todos os sentidos. E tem porque no seu significado, a vida e a morte são colocadas em cena com tudo o que isso acarreta: valores que nenhum outro tipo de espectáculo, transmite.