A não perder) Grande Reportagem) Azinhaga (Golegá), o último reduto do "Touro á Corda"...



AZINHAGA (GOLEGÃ)

FESTAS DO DIVINO ESPÍRITO SANTO,

FESTA DO BODO NA AZINHAGA (Golegã).

25 a 28 de Maio de 2023


O ÚLTIMO REDUTO DO “TOURO Á CORDA” EM PORTUGAL, INSERIDO NAS FESTIVIDADES DO DIVINO ESPÍRITO SANTO


A Festa do Divino Espírito Santo, também chamada a Festa do Bodo, realiza-se, na Azinhaga, (também conhecida como Azinhaga do Ribatejo-Golegã) desde tempos remotos, havendo já em 1569 referências documentadas acerca deste evento.

Se a característica religiosa era comum a este tipo de festejos, era a vertente popular e profana que as distinguia. 

Na Azinhaga as festividades brilhavam essencialmente nos seus aspetos recreativos, onde touros e cavalos tinham lugar cativo. 

Durante os primeiros dias da festa, era recolhido o pão das casas mais abastadas, que depois de benzido era distribuído pelos mais necessitados. E como ” não só de pão vive o homem”, era este já acompanhado de carne e vinho. Mordomos e meio – mordomos recebiam igualmente o seu quinhão como reconhecimento da sua benévola contribuição. Tem a Festa do Divino Espírito Santo – Festa do Bodo, raízes bem fortes na memória do coletivo Azinhaguense e, no entanto, durante o século passado, só por cinco vezes se realizou.

Não se conhecendo a data do início das festividades, na Aldeia mais Portuguesa do Ribatejo sabe-se, no entanto, como escreve o 2° Marquês de Rio Maior que nos "livros de Receita e Despesa do Morgado da Ventosa, existentes no Cartório da Casa da Anunciada", se pagava aos criados-justos, comedorias, no ano de 1678, "um alqueire de trigo, por cada uma das festas do Natal, da Páscoa e do Espírito Santo". Equiparam-se, como se vê, as três solenidades religiosas, dando-lhes igual importância. 

A partir de 1990, com Aureliano Alexandre e, depois, Vítor da Guia, a Junta da Freguesia tentou, com realismo, reavivá-la em moldes mais modernos, logo consentâneos com o interesse e as aspirações dos habitantes da aldeia. Marcou-lhe quatro, cinco dias do mês e chamou-lhe. "Feira de Maio", por aproximação com a data móvel do Pentecostes.

Em complemento, numa vertente dinâmica, surgiram, como por encanto, concertos, festivais de folclore, jogos tradicionais, desfiles de trajes e alfaias antigas, colóquios, palestras, desfile de campinos, entradas e largadas de touros….

Enfim, atualizou-se, como convinha, em contraponto ao estaticismo do passado

Atualmente a Festa do Divino Espírito Santo realiza-se todos os anos de forma simbólica apenas para assinalar o Espírito Santo, a Festa do Bodo realiza-se de 4 em 4 anos devido ao elevado custo da mesma.

Como curiosidade, o “toiro à corda" apenas se realiza desde 2003, até então esta atividade era realizada com vacas (vaca à corda), animais que seriam sacrificados e a sua carne distribuída à população. 

Para manter viva tão secular tradição Azinhaguense, foi constituída a 20 de Maio de 2014 a Associação do Touro á Corda.

Este ano os festejos decorrem entre os dias 25 e 28 de Maio de 2023 e haverá “touro á corda” nos dias 25, 26 e 27.



CONFRARIAS DO ESPÍRITO SANTO EM PORTUGAL.

Em Portugal, as Confrarias, Irmandades ou Fraternidades –típicas do Corporativismo sócio religioso medieval– «beberam» sempre da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Inspiradas pelos modelos mendicantes, estas formulavam um compromisso de vida e definiam propósitos – culto ao Salvador, Nossa Senhora ou algum santo – apoiados numa obra de misericórdia: “dar de comer aos famintos, vestir os andrajosos ou sufragar os irmãos falecidos”.

As confrarias do Espírito Santo, promotoras do culto, dos dons e dos frutos, surgiram em Portugal, um pouco por todo o país. Entre os rios Douro e Tejo e, com maior intensidade nas dioceses de Lamego, Viseu, Coimbra, Leiria, Santarém e no extinto bispado da Egitânia (hoje divido pela diocese da Guarda e Portalegre).

Para além das localidades citadas tínhamos também na Costa Alentejana e no litoral Algarvio, confrarias que viviam intensamente o culto ao Espírito Santo.

Os pescadores, por exemplo, associavam-se em Confrarias de Misericórdia – de invocação ao Divino Espírito Santo – e dispunham mesmo de hospitais próprios, como foram os casos de Alfama, Lagos e Tavira.

Quando se olha para o mapa dos conventos franciscanos fundados no decorrer da Idade Média e as respetivas zonas de influência da Ordem de Cristo (de Tomar às fortes posses no interior da Beira ) percebe-se o porquê do culto ao Espírito Santo e às instituições que estão na retaguarda,  deste culto.

A teoria de que as Confrarias do Divino Espírito Santos e respetivas Festas foram inicialmente instituídas, em 1321, no Convento Franciscano de Alenquer, sob proteção da Rainha Santa Isabel de Portugal e Aragão, não é consensual, pois a primeira Confraria que se conhece é a de Benavente, anterior às Festas de Alenquer, que tinha como missão “dar de comer aos famintos e enterrar os mortos”




O lado social e profano dos festejos 

A sequência ritual das Festas do Espírito Santo também conhecidas como Festas do Bodo concede também lugar de relevo a um conjunto de festividades, refeições, dádivas e distribuições de alimentos cerimoniais. 

“Festa do Bodo” significa dádiva de alimentos aos pobres. Durante os primeiros dias da festa, era recolhido o pão das casas mais abastadas, que depois de benzido era distribuído pelos mais necessitados. E como ” não só de pão vive o homem”, era este acompanhado de carne e vinho.

O abate de touros bravios era frequente — e necessário — para a confeção de centenas de  refeições e por exemplo no séc. XVI. na diocese de Leiria, as confrarias do Espírito Santo (que aqui também se chamavam «Confrarias do Bodo») possuíam curros e estábulos para touros, recolhidos nas cercanias da diocese.

E havia arraiais taurinos com os touros antes do seu abate. Porque os acidentes com os touros eram frequentes, em algumas povoações do país passou-se a trazer e sujeitar os touros com corda até ao momento do seu "sacrifício" para mais tarde utilizar as carnes para a confeção da popular “Sopa do Espírito Santo”.

Há um conjunto de historiadores, que considera que, os vários tipos de tauromaquias populares, existentes de Norte a Sul de Portugal, tiveram a sua origem nas Festividades do Divino Espírito Santo.


Penedo - Sintra

Um dos últimos redutos, de correr um touro á corda no decorrer das Festividades do Espirito Santo/Festas do Bobo ou a Festa do Touro como também era conhecida, situava-se  na Aldeia de Penedo (Sintra), onde se realizaram, em 2010, fruto de uma comissão de festeiros que queria trazer de novo à pequena povoação as sua típicas festividades de sempre. 


JAIME AMANTE


PS: Um agradecimento muito especial à Junta de Freguesia de Azinhaga, pelos dados fornecidos e pela sua amável colaboração para a execução deste artigo.




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tribuna da tauromaquia 
by JAIME M. AMANTE
Fotografia : Junta de Freguesia de Azinhaga
Recuerde : imágenes a mayor tamaño si hace click sobre ellas).
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