Mara Pimenta diz que o preço dos bilhetes afasta aficionados e lamenta haja quem aceite tourear de borla

El brindis de la faena de su alternativa, en Almeirim, para su padre y su hermano

Mara Pimenta tirou a alternativa como cavaleira tauromáquica na praça de toiros da sua terra, Almeirim, no domingo, 2 de Abril. A alternativa esteve marcada para 2020 mas a pandemia alterou-lhe os planos. Mulher de fé e supersticiosa, acredita que tudo acontece como tem que ser.
Diz que o preço dos bilhetes afasta aficionados das praças de toiros e lamenta que haja quem pague para tourear ou aceite tourear de borla. Quanto à morte do touro na arena considera que Portugal não está preparado para esse tipo de espectáculo.

A jaqueta cor de vinho que Mara Pimenta utilizou na corrida da sua alternativa está feita há três anos. A alternativa de Mara Pimenta como cavaleira tauromáquica decorreu no domingo, 2 de Abril, na praça de toiros de Almeirim, mas era para ter acontecido em Abril de 2020. Já estava tudo preparado mas a pandemia de Covid-19 impediu que o sonho da jovem de Fazendas de Almeirim se concretizasse naquela altura. 
“Foi um choque muito grande. Já estava tudo preparado, a publicidade estava nas ruas e a minha cabeça estava muito focada que iria acontecer naquela altura. Quando veio o confinamento foi muito duro, mas acredito que tudo acontece por uma razão e, embora me sentisse preparada, hoje estou ainda mais preparada, sobretudo emocionalmente”, confessa a jovem, de 27 anos.

Mara Pimenta recebeu O MIRANTE em sua casa dois dias antes da corrida que a tornou cavaleira profissional e a jovem não escondeu as emoções. Felicidade misturada com ansiedade e sentido de responsabilidade para não falhar na corrida mais especial da sua carreira. Os padrinhos de alternativa foram Luís Rouxinol e Ana Batista e a tarde correu de feição para Mara Pimenta.
Apesar de não ser oriunda de uma família com tradições tauromáquicas, Mara Pimenta vibra com corridas de toiros desde os dois anos quando começou a vê-las na televisão. Os pais nem ligavam muito à festa brava mas hoje tem sobretudo no pai, Luís Pimenta, o seu principal suporte. “Esta paixão inexplicável nasceu comigo. A minha mãe sofre muito ao ver-me tourear e talvez por isso não se manifeste muito. O meu pai é o meu pilar em tudo. Tanto a nível emocional como profissional. Se não fosse ele a investir na minha carreira, nos cavalos, que é tudo muito caro, nunca poderia estar a concretizar o meu sonho. Sou-lhe muito grata”, confessa, recordando que na sua primeira corrida, aos 16 anos, tinha apenas um cavalo.
Na corrida da sua alternativa levou a sua quadra de cavalos de confiança. O Pipo, o cavalo com que iniciou a lide, o Vigário, o Átila e o Dominic. Mara Pimenta recorda os tempos em que aprendeu a tourear em casa de Luís Rouxinol e os seis anos que viveu em Espanha, em casa de Diego Ventura. A jovem cavaleira garante ter aprendido muito com ambos, que a acolheram e trataram como se fosse família. Mara Pimenta, que sonha ser uma figura do toureio nacional, considera que depois da alternativa vem o percurso mais difícil. “É o início da minha carreira profissional. Tenho muito mais responsabilidade agora e tenho que dar o meu melhor em todas as corridas para ter mais oportunidades. É uma vida muito dura à qual me dedico todos os dias de manhã à noite”, garante.

“Não é por ser toureira que vou deixar de ser feminina”

A jovem cavaleira defende que as mulheres trazem outra beleza e sensibilidade às corridas de toiros e à festa brava. Além disso, considera que o público tem um carinho especial pelas mulheres toureiras. “Apesar de ser um mundo masculino temos conseguido impor-nos e fazer com que nos respeitem. Dentro da indústria nem sempre é fácil mas temos conseguido ser respeitadas. Faz falta o lado feminino numa corrida de toiros e não é por ser toureira que vou deixar de ser feminina”, defende.
Apesar de ter passado alguns momentos difíceis, como a morte de cavalos importantes num período com muitas corridas agendadas, nunca pensou desistir. Há fases em que as coisas não correm tão bem e é preciso força de vontade para superar obstáculos mas a jovem garante que desistir não é palavra que lhe passe pela cabeça. As corridas mais marcantes aconteceram em Almeirim e Albufeira porque lhe correram muito bem. A primeira vez que toureou na Praça Celestino Graça, em Santarém, também lhe ficou na memória mas por ter sido a primeira em que foi colhida. Embora não tenha sido grave não esquece o susto que sofreu.

Cavaleiros que pagam para tourear desvirtuam essência da festa brava

Mara Pimenta defende que os preços dos bilhetes das corridas de toiros devem ser mais baratos para que mais pessoas que gostam do espectáculo possam assistir. “Um casal com dois filhos, por exemplo, se tiver que pagar 20 euros por bilhete vai gastar 80 euros. Hoje em dia é muito dinheiro. Sei que o espectáculo tem que se pagar mas se os bilhetes não forem tão caros mais pessoas têm possibilidade de assistir”, refere.
A jovem cavaleira lamenta que existam toureiros a pagar para tourear e outros a tourear de borla e confessa ser incapaz de pagar para tourear, excepto em eventos solidários. “É uma situação desleal que desvirtua tudo o que deve ser a festa brava. Amo o que faço, assim como a maioria dos meus colegas, e não entendo como é que alguém se predispõe a pagar para fazer um espectáculo. Quando somos convidados para actuar é porque estão a reconhecer o nosso valor e isso é o mais importante. Não faz sentido situações dessas acontecerem”, critica.
Mara Pimenta já lidou touros de morte em Espanha mas defende que em Portugal deve continuar tudo como está porque, diz, a cultura é diferente. “Em Portugal as pessoas não estão preparadas para assistir a toiros de morte. É uma cultura espanhola e mexicana”, realça. No entanto, não defende o velcro para evitar o contacto da bandarilha com o toiro porque, afirma, iria desvirtuar a beleza da festa brava.
A cavaleira considera que a festa brava não vai acabar embora acredite que nalguns pontos do país, como Lisboa ou Porto, isso aconteça. Agora no Ribatejo, Alentejo e algumas terras do norte do país, onde a cultura da tauromaquia está enraizada, diz ser uma tradição que nunca vai desaparecer.

Admite fazer uma pausa ou abrandar ritmo quando decidir ser mãe

Mara Pimenta sonha com a sua carreira profissional de cavaleira tauromáquica mas licenciou-se em Gestão de Recursos Humanos para ter um plano B caso seja necessário. A jovem admite que um dia planeia constituir família e nessa altura prevê abrandar o ritmo das corridas ou fazer uma pausa. “Esta é uma vida muito dura. Toureio todos os dias e faço ginásio porque sou uma atleta e tenho que estar em forma para as corridas. Sei que quando quiser ser mãe vou ter que diminuir o ritmo ou fazer uma pausa. Acho que é possível conciliar tudo mas também sei que será necessário tomar uma decisão, mas não quero deixar as corridas em definitivo, fazem parte da minha vida e do que sou”, sublinha.
Confessa ser uma mulher de fé e tem algumas superstições. Nunca coloca o tricórnio em cima da cama: “É impensável!”. Veste-se e calça-se sempre primeiro do lado direito e não sai de casa sem fazer uma oração a Nossa Senhora de Fátima. Vai com frequência ao Santuário de Fátima, sobretudo para agradecer uma vez que se considera uma privilegiada por fazer o que ama. Diz que o apoio da família é fundamental para que as coisas corram bem e nos tempos livres é com a família, namorado e amigos que gosta de estar. Apesar de não dispensar o silêncio da sua casa.
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In O MIRANTE 
O maior e melhor jornal regional de Portugal
Fotografia : ROSALEA RYAN
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