Fernanda Maria Mouzinho vai ao treino dos de Alter do Chão e acaba reflectindo sobre o papel dos forcados

Vestir uma jaqueta de ramagens e entrar em praça é o momento mais ambicionado por um Moço de Forcado. É assim em todos os Grupos, só muda o padrão das ramagens. Mas este instante de glória tem a montante muitas vivências numa “engrenagem” com uma dinâmica muito própria que eu diria até que única.
Em dia de corrida todos se deslocam desde as suas variadas terras de origem até à localidade onde acontece o evento. É previamente destinado um espaço para a fardação, que poderá ir de uma casa privada oferecida para os “albergar” ou qualquer outro edifício que seja adequado para o efeito, e é esse mesmo local que serve de ponto de encontro. 

Todos chegam com as respectivas malas onde para além da farda primorosamente cuidada e do barrete que acumula vivências e marcas disso mesmo, levam também um conjunto de objectos pessoais que abrangem o leque da devoção, oração, superstição, dos amuletos da sorte ou qualquer outra coisa que lhes faz parte de um ritual onde cada um à sua maneira assumem a sua pequenez perante a grandeza do que o espera. Em função do número de touros que lhes toca pegar, (6 em situações pontuais, 3 ou 2 na maioria dos casos e 1 em casos poucos frequentes… tudo isto obviamente em função do número de grupos com quem partilham cartel), e das características dos animais que o Cabo já teve oportunidade de ver no momento do sorteio prévio, são escolhidos pelo Cabo do Grupo os Moços que se fardam para a Corrida em causa. Os restantes, os não escolhidos, pegam na respectiva mala e saem para a arrumar no carro que a transportou-se até ali. 

Obviamente que nenhum fica feliz por não ser “convocado” mas não há amuos ou birras, caretas ou caras feias, insultos ou pontapés no que se atravessa no caminho. Não se fardam mas respeitam a decisão, não vão ter a jaqueta vestida mas continuam a saber respeitar a hierarquia, não serão aplaudidos directamente mas vão estar representados por aqueles que o Cabo considera que naquele momento -e para o curro que lhes toca em sorte- são os mais adequados. 
Ainda no mesmo local, conjuntamente fardados e não fardados, ouvem as palavras de motivação do Cabo, fazem as suas orações, entregam-se individual e colectivamente nas mãos da sabedoria de quem os lidera e na proteção divina. Saem depois todos juntos em direção à praça. 

Na praça, os fardados terão direito ao momento de glória de pisar a arena, e os não fardados estarão entre o público a sentir tudo de igual forma, mas com aquela notória elevação a desejar que Deus os proteja a todos e a maior sorte para o seu Grupo … e serão os melhores e mais críticos do bom e do menos que venha a acontecer. 
Já os que estão em Praça, de jaqueta vestidos, de forcado na mão, de barrete a deixar visualizar um historial que só o próprio dono sabe ler… estão com o peso da responsabilidade, com o respeito pelo público que pagou bilhete e é quem de facto deveria ser soberano, com a carga inerente ao passado do seu Grupo que deve ser honrada, com um medo para gerir e um ego para alimentar… com um valor imensurável e uma arte impar. 

Em cada touro que sai à praça, o Cabo está obrigado a “ler” em poucos minutos tudo o que transmite, tudo o que contém, tudo o que vai dar e como o vai dar, tudo o que é fisicamente e tudo o que isso representa na hora da pega… e com a correcta “leitura” de todos esses dados o Cabo faz a escolha que lhe parece mais adequada do forcado que irá à cara, assim como os restantes sete que o vão acompanhar. 
Só como curiosidade e porque nisto da Festa Brava nada é ao acaso, são oito porque se considera que este será o número de homens necessário para, aproximadamente, perfazer o peso do touro que têm como oponente. 
Esta escolha do líder do Grupo é vital para um bom desempenho, da opção pelos homens correctos para umas determinadas característica de um touro pode resultar um bom ou mau desempenho. É o primeiro coeficiente de ponderação a contribuir, ou não, para o sucesso de uma pega. 

Torna-se facilmente evidente que um bom Cabo é um bom líder de um Grupo e só poderá desempenhar bem as funções que lhe estão atribuídas se conhecer muito bem os que vestem a jaqueta com as suas ramagens. E é aqui que reside a importância dos treinos. Qualquer modalidade exige treino, preparação física, disciplina, foco, determinação, empenho… e nesta actividade em específico ainda é preciso somar brio, centelha, identidade, valor e muita arte…. E é nos treinos que o Cabo estuda e avalia cada um dos Moços que constituem o seu Grupo e ganha noção do que e para que cada um vale…

Hoje tive o privilégio de aceitar o convite que o Cabo Joao Galhofas me dirigiu para assistir a um treino do Grupo de Forcados Amadores de Alter do Chão. Já não é novidade que estão a dar os primeiros passos num retomar de actividade com ambição mas muito conscientes do trabalho que têm pela frente. Gostei do que vi. Um conjunto maioritariamente jovem, com imensas arestas por limar, com muitos erros para corrigir, com tentativas completamente ao lado mas sem virar a cara nunca, com vontade de aprender, com aquele olhar de quem quer dar tudo mesmo quando o tudo ainda não chega para executar com perfeição… Vi gente jovem com ganas e gente mais madura com empenho no amparo e na indicação do caminho.
Saí da praça com a perfeita consciência que o caminho ainda agora está no seu recomeço, mas também com aquela agradável sensação de ter sido testemunha de um dos primeiros passos do que acredito venha a ser uma caminhada de sucesso.
Sorte.
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tribuna da tauromaquia 
by Fernanda Maria MOUZINHO 
Fotografia : Fernanda Maria Mouzinho
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