¡Barrancos forever!. Honor y gloria a quienes siempre supieron defender sus tradiciones...


Dra. ESTER TERENO )

Vou contar-vos uma história, se calhar não se lembram porque são muito novos.
Eu também sou, só tenho uma memória fora do normal.
Há uns anos, era eu miúda, fora de Barrancos, tirando com rapaziada taurina ou alentejana, o diálogo era sempre este:

- És de onde?
- De Barrancos
- Barreiro?
- Não não, Barrancos, no Alentejo
- Ah, no caminho para o Algarve?
- Não não, mais para a zona de Beja
- Ok, mas não conheço
 
E era isto, e daqui a ouvir anedotas de alentejanos preguiçosos era um tirinho. 
Sim, antes do Alentejo estar de moda, e a cena bucólica e pitoresca de hoje, uma grande fatia de portugueses conhecia apenas o caminho pela nacional para o Algarve.

Quando eram simpáticos e interessados, tentava explicar que éramos uma espécie de mistura, que tínhamos um dialecto, que crescíamos a ouvir música espanhola, e lá vinha um: “também gosto muito do Júlio Iglesias”, mais tarde, das Azucar Moreno, ou dos Gipsy Kings “Arlesianos”.
E se ainda tivesse uma réstia de paciência, dizia que ficava na fronteira, aí levava logo com “ah, também gosto muito de ir comprar caramelos a Badajoz”.

Incapaz de explicar que as noites dos bailes da fêra duravam até ao encierro, passando pela açorda de manhã, que a primeira directa que fiz na vida, foi com os pais. A primeira, a segunda, a terceira e por aí fora.. que se tínhamos sono em miúdos, dormíamos em camas improvisadas de cadeiras em pleno baile, que as orquestras eram espanholas, que sabíamos e sabemos as músicas todas, que crescemos com elas, que tínhamos cassetes e LP’s de sevilhanas (música russa, segundo um conhecido do pai quando ouviu sevilhanas no carro um dia). 
Não conseguia explicar a alegria de dançar o Paquito Chocolatero, ou El Pinguino, onde todos fazíamos as coreografias que nos ensinavam as orquestras, a alegria que era, e a magia do quintalão. Que bebíamos Cubas Livres e Tintos de Verano, e que não, não era sangria. Não era capaz de explicar o conceito de tanta festa e romeria espanhola que íamos, não havia nada parecido aqui. Ou mesmo, o conceito dos chiringuitos de praia, impossível! Que os homens, o pai, iam e vão beber o copo do meio dia com uma tapinha e algum cante.

Mais tarde, lembraram-se de nós pelos piores motivos, porque a meia dúzia os incomodava que fôssemos assim e logicamente com a morte do touro incluída (mais uma prova da mistura de sempre). E lá veio a mediatização, e de repente todos sabiam de onde eu era, e pior, todos sabiam quem era o meu pai, e pior ainda, todos tinham uma opinião formada sobre ele e sobre a terra, sem conhecerem nenhum!

Tempos muito “intensos”, tivemos muitos amigos, muita coisa boa, e menos boa também.
Hoje, com a generalização da cultura espanhola por todo o país, já não se nota tanta diferença. Mas nós continuamos a ser diferentes, carregamos uma história muito peculiar e única, e eu só tenho que agradecer ter o privilégio de crescer com ela.
Não melhores que ninguém, mas também nunca piores, mas muitooooooo diferentes!