Relata Jaime M. Amante que estava ali) Evocação de uma tarde com toiros de morte na praça de Mourão

Nuestro querido amigo y director-adjunto de la TRIBUNA da TAUROMAQUIA, Jaime Martínez Amante, que lleva décadas y se lo sabe casi todo en este siempre complicado mundo de los toros, ha querido en esta jornada próxima a la celebración del centenario de la plaza de toros de Mourão, evocar llamativas e importantes situaciones de tiempos pasados, ocurridas en relación a aquella histórica plaza de toros alentejana...

MOURÃO - TOUROS DE MORTE EM 1977
(Pequeno contributo para as comemorações dos 100 anos da Praça de Toiros Drº Libânio Esquivél)

MOURÃO, 22 de Maio de 1977
5 Novilhos-toiros, 4 de Drº António Silva e 1 de Cunha e Carmo
Cavaleiros :
Nelito Santana
Brito Limpo
Forcados Amadores de Moura
Pepe Luiz Núñez (venezuelano)
António de Portugal
Paco Duarte

O tempo passa a correr, parece que foi ontem, é o que habitualmente afirmamos e na realidade é o que me apraz deixar bem claro, parece que foi ontem.
Na História da Tauromaquia Portuguesa em geral, e especificamente na Cronologia das Corridas com Toiros de Morte que se realizaram pós-25 de Abril, raramente surge esta data, Mourão, 22 de Maio de 1977, cumprindo a efeméride, recentemente, 45 anos.

Domingo, 22 de Maio de 1977, decorria na pacata Vila Alentejana a sua tradicional Feira Anual, que na atualidade e em outros moldes passou a designar-se por Feira Anual “Saberes e Sabores da Raia''.
O Domingo estava soalheiro. Era a Primavera abraçar o Alentejo.

Partimos bem cedo de Vila Franca de Xira, o apoderado e creio que organizador do festejo Sr. João Mascarenhas, os novilheiros Pepe Luiz Núñez e António de Portugal, o moço de espadas Chana e eu. Em Mourão aguardavam o João José, o Jacinto Fernandes entre outros, que a memória não dá para tanto.

Em Vila Franca já tinha recebido instruções de que o António ia disposto a estoquear o seu novilho e que o venezuelano Pepe Luiz Nuñez estava solidário com o seu colega. João Mascarenhas ainda não tinha comentado o assunto com o terceiro novilheiro, Paco Duarte.

O espetáculo estava montado com gosto e reunia um conjunto de atrativos.
Nèlito Santana vinha de uma alternativa triunfal a 15 de Setembro de 1976 na Moita. Era um toureiro bastante popular e muito acarinhado pelo público.
Brito Limpo preparava-se para receber a sua alternativa no Campo Pequeno a 30 de Junho, concedida pelo Maestro Manuel Conde.
Pepe Luiz Núñez era um novilheiro “puntero” venezuelano que tinha chegado a Vila Franca no início do ano. Vinha tentar fazer campanha “á Europa” como habitualmente muitos toureiros sul-americanos faziam. Foram muitos os toureiros mexicanos, e venezuelanos que por esses anos apareceram em Vila Franca de Xira.
António de Portugal era a grande atração do cartel. O seu histórico reivindicativo da implementação dos toiros de morte em Portugal, já vinha desde o ano anterior na célebre data de 31 de Outubro de 1976 em Vila Franca de Xira e tinha acabado de participar na histórica corrida de 7 de Maio em Vila Franca de Xira, no fundo o único espetáculo integral que se realizou em Portugal após a revolução.
E por último, Paco Duarte que no domingo seguinte, 29 de Maio apresentava-se no Campo Pequeno ao lado de Fernando Guarany na novilhada que a Empresa do Campo Pequeno tinha oferecido ao novilheiro brasileiro após a sua longa odisseia (inicialmente dentro de um caixão) às portas da Monumental Lisboeta.

Tudo estava preparado para mais uma data histórica.
O espetáculo foi bastante agradável. Nelito Santana, Brito Limpo e os Amadores de Moura triunfaram na primeira parte, para gáudio do público presente.
Após o intervalo e o ruedo devidamente preparado, deu-se início a “denominada lide à Espanhola”. Tarde de êxito para os três diestros. Pepe Luiz Núñez (com quem nesse dia saí de moço de espadas), António de Portugal e Paco Duarte, terminaram as lides com três soberbas estocadas, no entanto Paco Duarte executou a sorte com uma “meteysaca” e o novilho só veio a morrer nos curros já depois de recolhido. Por tal facto foi o único novilheiro que não recebeu ordem de prisão.
Estrategicamente uma carrinha de caixa aberta encontrava-se no exterior da praça, para transportar as carcaças dos toiros abatidos para Vila Franca, facto que não chegou a acontecer pois a mesma foi intercetada junto a Évora.
O público vibrou entusiasticamente com tal feito e não houve qualquer alteração à ordem pública.

Os novilheiros Pepe Luiz Nunez e António de Portugal, cumpriram com as ordens do Comandante do Posto da GNR de Mourão, foram detidos e passaram a noite nos calabouços da força de segurança em Reguengos de Monsaraz.
No dia seguinte, o que para mim já era um hábito, os toureiros foram presentes a Tribunal em Reguengos de Monsaraz sem que antes todos os presentes - todos incluídos - tenhamos ido tomar o pequeno almoço ao Café Central sobre o olhar atento de dois guardas que zelavam pelos toureiros detidos.
Lida a sentença, os toureiros foram postos em liberdade sob fiança.

De regresso a Vila Franca de Xira, os toureiros foram recebidos por algumas dezenas de aficionados que nos esperavam junto “ A Forja” a aficionada loja do Srº Mascarenhas e no largo do Tribunal.

“Foi a 45 anos, mas parece que foi ontem”

JAIME MARTÍNEZ AMANTE