Partiu o engenheiro José Samuel Lupi, um dos maiores cavaleiros tauromáquicos de sempre


Jaime Martínez Amante.

O Mundo tauromáquico e Portugal perderam hoje - 8 de Março de 2022 -  uma lenda, um dos maiores cavaleiros tauromáquicos de sempre, um revolucionário do toureio a cavalo além-fronteiras, um ícone da cultura tauromáquica do nosso país.
Se restam dúvidas, há um antes e um depois na trajetória profissional do Engº José Samuel Lupi e o “mundillo” deve-lhe estar eternamente agradecido.
Pela sua mão, o toureio a cavalo, principalmente na vizinha Espanha, conquistou um estatuto até então negado a essa nobre arte.
O célebre cartel de “Los Cuatro Jinetes de la Apoteosis” desbravou caminho para as corridas de rejoneio e acabou por trazer para a ribalta nas grandes Feiras, o toureio a cavalo.
Hoje partiu um mito, uma lenda, uma verdadeira instituição e eu perdi mais um amigo.
Na memória ficarão sempre as nossas noites e tertúlias de fados na querida Alcochete, na Moita, nas idas ao Algarve anualmente, e a tão recordada ida a Ilha da Madeira. Nunca me negou um tentadero quando lhe pedia, e no nosso último encontro em Alcochete, perguntou-me se eu me tinha divertido com "O Bombero Torero".
Hoje, curvo-me respeitosamente perante a sua memória, triste pela sua partida, enviando um abraço sentido e fraterno a toda a ilustre Família enlutada e muito em particular a seus filhos e netos, apresento-lhes as minhas mais sentidas condolências.


ENGº JOSÉ SAMUEL LUPI

José Samuel Pereira Lupi nasceu em 1931, em Lisboa, vivendo toda a sua infância e juventude ligado a Rio Frio, onde os seus pais viviam a maior parte do ano, pois seu progenitor geria então essa enorme propriedade, que juntamente com a Barroca d’Alva e Rilvas constituíam o vasto universo da Socd. Agrícola de Rio Frio.
Licenciou-se em Engenharia de Silvicultura no Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa no ano de 1954.
No ano seguinte fixa-se na Herdade da Barroca D’Alva e toma a seu cargo um conjunto de  iniciativas e ações com vista ao desenvolvimento do concelho. Foi presidente do então Grémio da Lavoura, da Casa do Povo de Alcochete e da Assembleia-Geral do Aposento do Barrete Verde de Alcochete, bem como presidente da Direção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Alcochete.
A família estava ligada à criação do toiro bravo e do cavalo, tendo-se desde menino dedicado à equitação e, mais tarde, abraçado a arte do toureio a cavalo.
Apresentou-se pela primeira vez no Campo Pequeno em 1955 e recebeu a alternativa em 16 de Junho de 1963 nessa mesma praça das mãos do Mestre João Branco Núncio, lidando o toiro "Verdugo" pesando 540 kg da ganadaria de D.Mariana Passanha, o qual foi pegado pelo Grupo de Forcados Amadores de Santarém.
Apresentou-se pela primeira vez em Espanha em Mérida no dia 12 de Outubro de 1966, tendo a partir daí, sem nunca ter deixado de continuar a  actuar nas principais praças portuguesas, concentrado a sua carreira principalmente no país vizinho, onde se tornou figura cimeira, sempre apoderado pelo conceituado Jacinto Alcón.
Em Espanha atuou com todas as figuras da época e também com os Maestro Alfredo Conde e José Maldonado Cortes.
O toureio a cavalo era em Espanha até à sua chegada, uma arte residual no panorama taurino – os rejoneadores participavam até então normalmente abrindo praça nas corridas de toiros, limitando-se a tourear um toiro. Com José Samuel Lupi, principalmente nos anos em que, acompanhado dos irmãos Peralta – Angel e Rafael – e Álvaro Domecq Romero, integrou "Los Quatro Ginetes del Apoteosis", cartel que ficará para sempre gravado a letras de oiro na história do rejoneio espanhol, o toureio a cavalo passa a integrar – o que até aí não se verificava – todas as grandes feiras taurinas de Espanha.
Fruto da convulsão política de então, parte para a Venezuela em 1975 , país onde actuou entre a sua chegada e 1980 com actuações também na vizinha Colômbia. No país da América Latina faz escola dando origem a uma nova geração de cavaleiros venezuelanos que se iniciou com Javier Rodriguez que também “estagiou” na Barroca d’Alva.
A 10 de Junho de 1979 leva a corrida de  “Gala á Antiga Portuguesa” ao Nuevo Circo de Caracas, tendo como companheiros José Maldonado Cortes e Alfredo Conde para lidar toiros mexicanos de Torrecilla. Estreia-se nessa tarde o Grupo de Forcados Amadores Lusitanos capitaneados por Fernando Hilário.
Festejou as Bodas de Prata da sua alternativa no dia 12 de Junho de 1988 na Praça Celestino Graça em Santarém, utilizando a época a quadra do então amador Nuno Pardal, corrida que contou com a participação do Grupo de Santarém e da Amizade (constituído por antigos forcados de diversos Grupos), tendo o primeiro dos toiros que lidou sido pegado pelo seu grande amigo e um dos maiores forcados do seu tempo (e de sempre), Luís Freire Gameiro, dando juntos volta de honra à praça..
Eternamente ligado a sua carreira ficará o cavalo Sueste, de ferro Atalaya (com uma longevidade notável, pois viveu 36 anos!), um verdadeiro mito na História dos cavalos de toureio. A este a que juntar o Ultimatum desse mesmo ferro, o Goldfinger de ferro Conde Cabral, o Feroz de ferro Gama, o Ibail de ferro Rio Frio e o Cordobes de ferro Lico todos foram montadas de grande qualidade e que lhe proporcionaram grandes momentos de sucesso nas praças em que actuou.
Evidenciou-se igualmente como ganadeiro, desde os finais dos anos 50, com a ganadaria que herdou com o ferro Rio Frio (de origem Pinto Barreiros) e, posteriormente, acrescentando, nos meados dos anos 60, a ganadaria de ferro José Lupi, originária de Fermin Bohorquez, de encaste Urquijo. O mesmo aconteceu com a coudelaria que herdou e desenvolveu, cujos produtos se destacaram ao longo de décadas como cavalos de desporto e de toureio.
Fardou-se pelo Grupo de Forcados Amadores de Santarém na segunda metade dos anos 50, evidenciando-se como cernelheiro.
Em Março de 2001 foi distinguido em Madrid com o honroso prémio "Gabana 1800 - Siglo XX del Toreo", galardão atribuído às figuras do toureio mais importantes dos anos 60 e 70 do século passado.
A 8 de Maio de 2008 voltou a vestir a casaca para conceder no Campo Pequeno a alternativa a seu filho Manuel Lupi, cerimónia testemunhada pelos seus companheiros do famoso Quarteto, Álvarito Domecq e os irmãos Peralta - que em 2011, última vez em que se vestiu de toureiro, o voltariam a acompanhar numa grande homenagem que lhe foi prestada em Alcochete, onde para sempre ficou perpetuada a sua figura com um busto num dos principais largos da Vila de Alcochete.
No ano de 2016, a Administração da empresa do Campo Pequeno, então presidida pela Drª Paula Mattamouros Resende, com Rui Bento a dirigir o Departamento de Tauromaquia, outorgou-lhe o prestigiado Galardão Prestígio, que lhe foi entregue a 13 de Outubro de 2017 na corrida de gala que encerrou esse ano a temporada lisboeta.
Era um apaixonado pelo fado, sendo presença assídua nas inúmeras noites de fados que se realizavam principalmente em Alcochete e Moita.