Uma triste opinião

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Uma triste opinião

Por Manuel Peralta Godinho e Cunha - ( "Partebilhas"

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José Rodrigues dos Santos (na foto), locutor da televisão portuguesa, na entrevista que lhe fizeram recentemente para a divulgação do seu último livro, considerou que a pecuária é a principal causa das alterações climáticas.

O afastamento total da ruralidade de muita gente que vive em grandes meios urbanos permite – ou provoca – posições e conceitos perfeitamente distantes da realidade.

O habitante de Lisboa, de avenida, de esplanada, de cachorro à trela, das trotinetas, do centro comercial a ver as montras – o que procura a fruta bichada a pensar que é ecológica – desconhece completamente o esforço dos que cultivam as terras e que são produtores pecuários.

E esses agricultores não têm cães reclusos em casa, nem peixinhos de aquário, mas tratam os animais como sempre fizeram: bem!

Na sua argumentação, José Rodrigues dos Santos, compara os matadouros de bovinos aos campos de extermínio nazis, onde foram sacrificados milhares de judeus… mais a alegação da tal teoria urbana de que é a produção de bovinos a responsável de uma significativa emissão de gases de estufa, sem ter em conta que Portugal é um dos países da Europa onde grande parte dos ruminantes é criado em regime extensivo, nomeadamente os bovinos.

Sendo o Ribatejo e o Alentejo os detentores de grande concentração da área agrícola do país, tanto em terras aráveis e culturas permanentes, como em pastagens há que notar que as pastagens permanentes têm aumentado nos últimos anos e caracterizam mais de metade da superfície agrícola utilizada na maior região de Portugal, o Alentejo, evidenciando a importância da produção de ruminantes em sistema extensivo nesta região.

Portugal e devido às suas características edafo-climáticas, distingue-se por ter diversas áreas agrícolas desfavorecidas. Assim e nessas regiões, a produção de carne de bovino em modo extensivo é uma importante fonte de receita e de emprego e também de aproveitamento e enriquecimento do solo.

Contudo, José Rodrigues dos Santos sugere aos portugueses que comam menos carne. Quais portugueses? Os que resolveram ser veganos, vegetarianos e afins, que não comem carne e acham que os outros também não a devem comer? Os quase dois milhões de portugueses que estão no limiar da pobreza e que portanto raramente têm possibilidade de a consumir? Ou os que, tal como ele, podem comprar e comer de tudo o que lhes apetecer mas que, para estar à moda resolvem recomendar aos outros a redução consumo de carne de vaca porque os ruminantes provocam alterações climáticas por emissão de gases de estufa?

Mais importante do que essa moda – que ainda não chegou ao “politicamente correcto” mas está a tornar-se uma tendência de ataque  ao mundo rural – seria que os seus defensores instalados nas grandes cidades, bem de vida e com acesso aos meios de comunicação, estudassem a forma de como resolver a pressão da procura do mercado para alimentar a população mundial em crescimento, sem descuidar o enorme número de pessoas que em imensos territórios estão em pobreza constante, sem acesso aos meios elementares de saúde e de habitação, passando fome e que não podem reduzir o consumo de carnes vermelhas e brancas simplesmente porque não têm qualquer possibilidade de as comprar.

Se é verdade que os bovinos têm alguma influência nos gases de estufa, também é verdade que as pastagens contribuem positivamente na descarbonização atmosférica. As raças de bovinos em Portugal, bem adaptadas às condições naturais, bem visíveis na ganadaria brava, proporcionam um reservatório de biodiversidade inestimável e que deve ser defendido para potenciar o equilíbrio ambiental.

Manuel Peralta Godinho e Cunha