Saudades da Capeia Arraiana. Tempos do Covid : "Falta-me sentir a emoção que a nossa tradição nos dá"

Estar dois anos sem o habitual Encerro, Capeia Arraiana e Forcão, no Distrito da Guarda; sem A Fera de Barrancos ou as Touradas a Corda na Ilha Terceira, foi penoso para muitos portugueses.
Hoje damos testemunho a Frederico Gomes de Abreu, Forcado do Aposento da Chamusca e natural de Forcalhos (Guarda).


CHEGA O MÊS DE AGOSTO

Chega o mês de Agosto, algo que eu espero o ano todo, preparo a tão esperada viagem até à minha aldeia, chego às origens feliz e só com um objetivo, rever família, amigos, lugares, etc.
Na Raia, tudo muda para melhor, um sítio único com pessoas maravilhosas onde o mês se passa como se tivesse no Paraíso. Vivemos tudo intensamente, como se não houvesse o amanhã. Todos os problemas ficam para trás, é como outra vida se apoderasse do nosso corpo.
Aqui sou feliz.

Chega o dia da capeia, “aquele” dia. O dia que representa a nossa tradição, a nossa identidade, as nossas gentes, as nossas origens, o dia que me representa e que ao mesmo tempo eu represento com dever, orgulho e valentia.
A noite que antecede a capeia, a tal noite mal dormida por mais horas que vá à cama, a ansiedade ocupa-se de mim, uma mistura de sentimentos que invadem o meu ser.
O dia amanhece e já se ouve barulho na rua, eu acordo, lavo o rosto, tomo o café da manhã e visto um sorriso para encarar tudo e todos.
Coisas do dia a dia, mas de um dia diferente.

É difícil expressar tanta alegria e orgulho neste dia, por vezes lágrimas me correm pelo rosto. Sentir a emoção que o dia de Capeia me transmite é algo fora do normal, ir à ganadaria, ver os últimos preparativos com os bois, ouvir quem por lá manda a dar as últimas ordens para que tudo corra bem... os cavalos em euforia para correr, como se já soubessem o que vai acontecer. São animais e também sentem adrenalina. Todos preparados como se de uma corrida fosse, tudo em ordem, toiros para a rua, começa a viagem da minha vida. Já no campo o encerro, o bater do coração velozmente, não de medo, mas de alegria. 

Toiros e cavalos vão-se entendendo, gente por todo o lado, a tradição começa. No meio do campo ouvem-se os ecos do encerro, o pó não pode faltar, sempre atento se algum foge. A meio paramos, para todos descansarem, os mordomos oferecem a merenda, tiram-se fotos e passado minutos a adrenalina continua em direção à praça. Entra-se na aldeia e a correria começa. Toiros e cavalos misturam-se na multidão, fazem a última corrida onde a meta será onde tudo começa minutos depois. Um barulho ensurdecedor, é como se festejasse uma vitória, ao entrar na praça e dá-se o encerro por terminado. Por vezes com alguns percalços que fazem parte. Toiros para a praça para serem vistos pela multidão, e segue-se o toiro da prova para dar a conhecer o que irá acontecer pela tarde.

Hora do almoço, enchem se as ruas com fumos de comidas das roulottes, casas cheias com famílias que se juntam nesse dia, tudo anseia pela tarde.

Chega a hora da capeia, barulho, música tudo de um lado para o outro, chegam os mordomos faz-se o pedido da praça, tudo enfeitado, desfile, cavalos e venha de lá o primeiro toiro.
Carregar o peso da nossa tradição nos braços, no meio da praça, é motivo de orgulho. Ouvir o bater no portão, abre-se uma escuridão de onde sairá o rei da festa, e vem ele na nossa direção... bate, roda, grita-se, dá-se luta em tarde de muito calor, ali andamos nós, 30 rapazes, parecendo um só bailado, às ordens da investida do toiro, por vezes somos nós a mandar. Retira-se o forcão com dever cumprido, venham de lá os mais corajosos, correndo à volta do toiro mostrando a valentia, cada um com as suas habilidades, será assim a tarde toda!!

Entre toiros, sai uma bezerra para os mais novos, onde já começam a viver a tradição e os seus deveres para mais tarde darem seguimento a tradição.
Já no fim da tarde, sai o último toiro (normalmente o maior), até esse momento não nos apercebemos que aquele dia está a chegar ao fim. Quando cantamos o nosso hino todos juntos no meio da praça unidos como uma família, é que nos damos conta que tudo acabou, falo por mim, choro e penso que ainda agora acabou e já sinto saudades.
Isto é viver algo com muita paixão, quem não vive não sente.

Chega o momento de os toiros regressarem a casa e faz-se o desencerro. Toiros e cavalos para a rua, e novamente a multidão para os ver partir.
Assim é a nossa Tradição, sempre com respeito pelo Toiro, pois sem ele não eramos o que somos.

Penso que falo por todos, a ausência nestes últimos anos tem sido uma dor para nós, 2 anos difíceis, 2 anos estranhos, o silêncio é tanto que prefiro ouvir o vento.
Fingir que está tudo bem.
O que era rotina hoje é saudade...
É difícil expressar o vazio que estou a sentir. Dizem que a vida nem sempre é como idealizamos, mas o que eu nunca imaginei foi que o nosso mês de agosto fosse um mês igual aos outros, um mês cheio de nada, de um silêncio ensurdecedor.
Falta-me sentir a emoção que a nossa tradição nos dá.
Hoje sinto que tenho tudo e que não tenho nada! Mas dizem que nada acontece por acaso, e que este acaso seja para que voltemos mais fortes e melhores.

Frederico Gomes de Abreu 
Forcalhos - Guarda

Forcão ao Covid-19

A imagem é de Jorge Pena, Sergio Sánchez Roman e Municipio do Sabugal com agradecimento especial a Alexandra Leal .


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