Campo Pequeno : 129 anos a retratar a História do Toureio em Portugal

CAMPO PEQUENO. 
18 de Agosto de 1892 - 18 de Agosto de 2021.
129 anos a retratar
a História do Toureio em Portugal.

Por Jaime Martínez Amante.

As bancadas da praça de Toiros do Campo Pequeno, testemunham a história do toureio em Portugal mas não só. Durante os seus 129 anos de existência, foi igualmente palco de acontecimentos políticos e sociais que fazem parte da própria história recente de Portugal.

Pelas suas bancadas e arena, passaram reis, rainhas, imperadores e presidentes, estrelas do cinema, tv, da música das artes, do circo, a etnografia esteve presente em vários Festivais de Folclore Nacionais e Internacionais e manifestações da tauromaquia popular como a Capeia Arraiana ou a presença dos Charros Mexicanos, marcam a vida desta praça.

Registe-se ainda outra curiosidade: em 20 de Abril de 1919, sob a gerência do empresário Segurado e a exemplo do que por vezes também se praticava em Espanha, foi a arena da monumental lisboeta dividida em duas, lidando-se toiros, simultaneamente, em ambas metades.

Após o 25 de Abril a sua importância social alastra para a política, tendo sido o recinto de inúmeros comícios e de congressos partidários históricos, que marcaram a vida da nossa democracia. Uma praça de toiros que é um ícone da cidade e do país.

Em 18 de Agosto de 1892, o primeiro toiro de Emílio Infante da Câmara saiu à arena. A sua lide coube ao cavaleiro Alfredo Tinoco o qual, a par do seu alternante dessa tarde, Fernando de Oliveira, disputava o primeiro lugar no naipe dos mais importantes ginetes do século XIX. Para a história, recorda-se o cartaz inaugural: Cavaleiros Alfredo Tinoco e Fernando de Oliveira. Bandarilheiros: Vicente Roberto, Roberto da Fonseca, José Peixinho, João Calabaça, João Roberto e os seus colegas espanhóis Felipe Aragón "Minuto" e "Pescadero".

Como curiosidade no ano da sua inauguração, 1892 e mesmo sendo inaugurada em Agosto ainda se realizaram 16 corridas de toiros, tendo a última ocorrido a 18 de Dezembro, todas com lotação esgotada.

Também o Campo Pequeno foi palco de várias corridas com toiros de morte, que provocaram acesa discussão fora da praça entre grupos pró e contra este tipo de espectáculo. A estas corridas ficou ligado o nome do Coronel Ferreira do Amaral, Comandante-Geral da Polícia de Segurança Pública que, entre 1927 e 1933, permitiu a realização destes espectáculos, alguns dos quais com fins beneficentes para a Caixa de Pensões da própria PSP.

A 12 de Junho de 1927, o matador espanhol Fausto Barajas e o mexicano Juan Armillita exerceram, de facto, a sua profissão no Campo Pequeno, ao estoquearem toiros de João Coimbra, ao passo que o cavaleiro António Luís Lopes deixou o seu nome ligado à lide e morte de dois toiros de Palha Blanco. As grandes figuras destes tempos, como os espanhóis Marcial Lalanda, Domingo Ortega, Manolo e Pepe Bienvenida, ou o mexicano Luís Freg foram, em efectividade, matadores de toiros em arenas portuguesas, designadamente na primeira praça do país, até que um decreto de 1933 proibiu, em definitivo, as corridas com toiros de morte, em Portugal.

Já após a sua proibição (1933) estoquearam toiros no Campo Pequeno, os matadores portugueses Manuel dos Santos, a 3 de Junho de 1951, António dos Santos, a 29 de Setembro de 1959 e José Falcão, a 20 de Julho de 1974, semanas antes de falecer em Barcelona.

A realização de corridas de toiros, designadamente as denominadas "de Gala à Antiga Portuguesa" inseriu-se, com frequência, nos programas de comemorações de datas festivas da nossa história, ou foram integradas nos programas sociais das visitas de chefes de Estado a Portugal.

A tradição de obsequiar com uma corrida de toiros, "de Gala à Antiga Portuguesa" os Chefes de Estado que visitam o nosso país vem, infelizmente, perdendo peso nos respectivos programas oficiais, sobretudo após o golpe militar de 25 de Abril de 1974.

Várias foram as datas e os momentos da nossa História devidamente comemorados com a realização de grandiosas Corridas de Toiros, como o 4º Centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia, uma organização do Real Clube Tauromáquico Português.

Deslumbrante, segundo testemunhos da época, foi a corrida realizada a 6 de Abril de 1903, por ocasião da visita de Eduardo VII de Inglaterra. Em praça estiveram os cavaleiros José Bento de Araújo, Fernando de Oliveira, Manuel Casimiro, Joaquim Alves, Simões Serra e Eduardo Macedo, bem como os bandarilheiros Jorge Cadete, José Martins, Telles Branco, Manuel dos Santos e Tomás da Rocha e, ainda, dois grupos de forcados.

Nesse mesmo ano (1903) realizou-se a 11 de Dezembro uma corrida de homenagem a Afonso XIII, de Espanha, e a 26 de Maio e a 28 de Outubro de 1905, em honra do Imperador Guilherme II da Alemanha e do presidente Loubet, de França, respectivamente.

Taurinamente, os Lisboetas comemoraram a implantação da República, a 17 de Outubro de 1910, com uma corrida em que participaram os cavaleiros Eduardo Macedo e Morgado de Covas e o matador espanhol Agustín Garcia "Malla".

Sidónio Pais, um dos Presidentes da República que maiores multidões arrastou, teve também uma corrida em sua homenagem, a 12 de Maio de 1918, na qual, com toiros de João Coimbra, se apresentaram os cavaleiros Morgado de Covas, Adolfo Machado, Rufino da Costa, Francisco Bento e Ricardo Teixeira.

A última das grandes corridas em honra de um Chefe de Estado terá sido a realizada a 15 de Maio de 1973, quando o Presidente da República Federativa do Brasil, Emílio Médici, visitou oficialmente o nosso país. Corrida com os cavaleiros Manuel Conde, José Mestre Baptista, Alfredo Conde, Luís Miguel da Veiga, Fernando Andrade Salgueiro e Frederico Cunha, os forcados de Santarém e de Montemor e toiros de Emílio Infante da Câmara.

Nesta praça, são marcos da generosidade do Mundo taurino as corridas organizadas a favor da Assistência Nacional aos Tuberculosos, da Liga dos Antigos Combatentes e da Liga Portuguesa Contra o Cancro, entre outras entidades que contaram com a dádiva desinteressada de artistas e ganadeiros.

Históricas e memoráveis as corridas organizadas pela Casa da Imprensa, em que alternavam as máximas figuras do momento, de Portugal, Espanha e México, as da Casa do Pessoal da RTP e a corrida da Rádio, da responsabilidade do Programa "Sol e Toiros" da RDP.

Do ponto de vista artístico, inesquecíveis, as grandes lides de João Branco Núncio, as competições entre os cavaleiros José Mestre Baptista, Luís Miguel da Veiga, José João Zoio a presença dos rejoneadores espanhóis Álvaro Domecq (filho) e Manuel Vidrié, ou a explosão de entusiasmo provocada pelo cavaleiro João Moura, entre 1976 e 1986? E as faenas de matadores como Diamantino Vizeu, Manuel dos Santos, Francisco Mendes, José Júlio, Amadeu dos Anjos, José Falcão, Vítor Mendes,José Luís Gonçalves, Rui Bento Vasquez, Pedrito de Portugal, entre outros ou dos espanhóis António Chenel "Antoñete", Juan Garcia "Mondeño", Paco Camino, Diego Puerta, Currillo, José Luis Parada, Francisco Rivera “Paquirri” ou Pedro Moya "El Niño de la Capea".E tantos e tantos momentos históricos protagonizados pelos Grupos de Forcados de Lisboa, Santarém, Montemor, Vila Franca de Xira, Évora, Beja,Alcochete, Montijo e Moita entre outros de igual relevo.

Se para a esmagadora maioria dos cavaleiros foi ponto de honra tomar a alternativa na Praça de Toiros do Campo Pequeno, também para os grupos de forcados e para os matadores de toiros, esta praça constitui marco importante nas suas carreiras.

Indissociável na história desta praça os momentos de tragédia associados ao mundo dos toiros. Nos 129 anos de existência da Monumental Lisboeta, três cavaleiros e um forcado aqui morreram, nos primeiros cem anos da sua história.

A primeira colhida grave sofreu-a, em 1893, o matador espanhol Juan Luis Lagartijo que, ao colocar um par de bandarilhas, foi volteado, fracturando o crânio. Quatro anos depois, o seu compatriota "Minuto" foi vítima da segunda colhida mais grave do então curto historial da praça. O bandarilheiro Manuel dos Santos, em 7 de Junho de 1901, foi o primeiro artista português a ser colhido com gravidade nesta arena. Sofreu fractura da perna esquerda, em consequência de uma investida do toiro "Esganado", de Faustino da Gama.

A 12 de Maio de 1904, o cavaleiro Fernando de Oliveira sucumbiu, a caminho do hospital, de S. José, em consequência da fractura de crânio que lhe produziu o toiro "Ferrador", do Marquês de Castelo Melhor, ao derrubá-lo do "Azeitona", quando rematava um ferro à tira.

Em 16 de Outubro de 1966, um toiro de José Samuel Lupi, "Carvoeiro" de nome, provocou um acidente idêntico ao ocorrido 62 anos antes. Desta vez a vítima foi Joaquim José Correia, que nesse dia completava 21 anos. Montava o "Tirol" e toureava um festival de beneficência a favor do Orfanato Escola Santa Isabel.

Em 11 de Agosto de 1983, o cavaleiro José Varela Crujo foi gravemente colhido por um toiro de Pontes Dias e entrou em coma profundo, vindo a falecer a 25 de Dezembro de 1987, no Hospital Distrital de Beja.

Entretanto, a 10 de Setembro de 1953, o forcado João Fernandes Júnior, conhecido por "João Raiva", ao tentar pela segunda vez pega de caras ao sétimo toiro da corrida, sofreu perfuração de uma vista com uma bandarilha que lhe atingiu o cérebro, em consequência disso viria a falecer no dia seguinte. A 30 de Agosto de 2012, o forcado Nuno Carvalho "Mata", do Grupo de Forcados Amadores do Aposento da Moita, foi gravemente colhido ao tentar pegar um toiro da ganadaria Infante da Câmara, sofrendo fractura de uma vértebra cervical, que deixou o forcado tetraplégico.

Bibliografia: Praça de Toiros do Campo Pequeno (António Manuel Morais); Lisboa das Toiradas; Campo Pequeno Web.

Revista de la época da cuenta del paso de "Gallito" por Campo Pequeno

Otra revista de entonces da cuenta también de la actuación del famoso
diestro español en la Catedral del Toreo lisboeta.

El cartel de la inauguración




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